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Acabo de chegar do Parque Indígena do Xingu preparando índios da etnia Kaiabi para participarem da produção do filme Xingu. Tanto no elenco principal quanto no elenco de apoio.

A história dessa etnia é muito importante para ilustrar a importância do Parque do Xingu para a população indígena. Eles são originários do Pará mas foram trazidos para o Xingu para que não desaparecessem pois a exploração econômica de suas terras ancestrais feita de invasões violentas e ataques a suas aldeias, representavam uma ameaça real a sua sobrevivência. Ali eles reconstruíram suas aldeias e refizeram suas vidas em terras menos ricas mas mais seguras. Os Kaiabi também se empenharam muito na luta pela demarcação e preservação do Parque, junto aos irmãos Vilas Boas.

Os Kaiabi falam português, conhecem nossos costumes e nossos modo de viver. Eles tem uma cultura rica que conheci superficialmente mas nela não existe teatro.

A dança é uma feita em coletivo, um grande corpo que se move com muitos pés que batem o ritmo no chão. O canto tem uma harmonia diferente e melodias que revelam uma grande espiritualidade. Mas sempre cantado em grupo. As letras trazem força, ou evocam os antepassados, ou estão em função de alguma situação que se vive no presente.

A Pintura corporal e assim como os adornos são formas mais individualizados de expressão.

Existem contadores de história mas eu não vi nenhum em ação.

Hoje em dia alguns cursos de formação em Saúde e Educação utilizam o teatro improvisado como ferramenta didática.

Mas nada de teatro.

Enfim eles se mostraram muito interessado em cinema. Já tiveram notícia ou mesmo experiência com essa linguagem tendo sido objeto de alguns documentários que segundo eles disseram não chegaram a ver. Isso é uma fonte de mágoa e desconfiança.

Apesar disso eles se mostrarem receptivos, atentos e disponíveis.

Os participantes desta oficina haviam sido pré-selecionados por meio de testes realizados pelo Chico Accioly. Um experiente produtor de elenco que foi visitar as aldeias de barco durante semanas, convencendo caciques e pessoas a se prestarem a simplesmente contarem uma história para uma pessoa imaginária.

Das quatrocentas pessoas testadas chegamos a um grupo de quase 50. Que seriam o elenco de apoio, aquele grupo que poderia a qualquer momento estar interagindo com os principais. Entre essas pessoas também precisávamos encontrar um elenco principal kaiabi para estarem constantemente em cena com os principais brancos.

Escolhemos nove que virão para Canarana para uma outra oficina mais curta para que possamos definir esse elenco.

Isso é um resumo do trabalho.

Essa foi a primeira vez que trabalhei num lugar onde eu não entendia a língua local mas as pessoas falavam a minha língua.

As diferenças são óbvias. O Xinguano vive do que a terra lhe oferece e daquilo que consegue plantar. Dinheiro, economia… possuir não tem nenhum grande valor. Aqui não se vive para o futuro, se vive para o presente e para a coletividade. A vantagem de quem vive no Xingu é que ele tem uma certa distância do mundo em que nós vivemos que se estrutura na posse, no acúmulo como meta de vida. Nem que aquilo que se acumule seja só informação, títulos, feitos, obras…

Conforme me explicaram o Kaiabi quando morre quer tudo que é dele seja queimado para a sua pessoa não seja lembrado. Ele quer partir sem levar nada.

Isso é muito diferente para nós que não queremos abrir mão de nada e ainda pensamos em deixar alguma coisa para nossos descendentes.

Mas como resolver a questão de fazerem entender que o que fazemos como arte é abstração. É uma manifestação do indivíduo, da sua necessidade de expressar a sua sensibilidade…

Enfim tenho muito o que pensar mas enquanto isso vou resolvendo problemas.

O curso se desenvolveu de maneira muito fluída. Quando pus eles para criarem, fizeram bem. Quando mostrei o material gravado eles souberam ver os acertos e os erros. Se prontificando a acertar.

Isso é o que importa agora.

O grande desafio deste trabalho ( e desta produção) é a comunicação.

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