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Achei uma entrevista que dei por e-mail falando do processo do filme. Eu dei essa entrevista três anos depois do fim do trabalho.

Aqui eu copio ele sem cortes.

Olá Guilherme,
tudo bem? Para mim foi uma semana intensa em que não tive tempo para parar a não ser para dormir (pouco).

A preparação do Noel Rosa demorou umas sete semanas. Aí estão incluídos os testes finais de elenco.

O Rafael apareceu para nós com muita determinação e disposição. A semelhança física com o Noel nos chamou muita atenção e o seu senso de humor também. Apesar de inexperiente em cinema vimos que com ele tínhamos um ótimo ator.
O Rafael teve que aprender a tocar violão e tomar aulas de canto. Teve aulas de dança de salão. Para desenvolver habilidades físicas que precisávamos para compor a personagem.
As nossas referências eram fotos, gravações e uma excelente biografia do Noel escrita por João Máximo e Carlos Didier. Mas esse material só não era o suficiente para conhecermos o Noel. Também não queria entrar na armadilha de fazer uma reconstrução precisa da figura real do Noel e passar todo tempo achando uma justificativa para cada gesto. Queria ter liberdade e humanizar a figura dando lhe traços comuns a todos e ainda mostrar sua genialidade.
Uma das coisas que eu faço é não fazer o ator se preocupar com a personagem mas lutar para não perder sua espontaneidade. Tudo fica mais simples quanto mais se entende do que se trata. À partir do momento em que Rafael se apresentou para mim passei a tratá-lo como Noel Rosa e entender quem é essa figura que está na minha frente e como fazer com que possamos contar a estória juntos. Ao mesmo tempo fui alimentando ele de elementos da dramaturgia, mostrando para ele as fronteiras por onde ele deveria se mover.
Eu analiso comportamentos para compor personagens. Todo ser humano tem mais variações no seu comportamento que um personagem porém ao escolher alguns destes podemos perder outros que gostamos.
Entre o ator Rafael e a descrição da personagem havia semelhanças e diferenças.  O Rafael e o Noel são intensos. O Noel tinha um comportamento mais seco (assim eu e o Ricardo o definimos) o Rafael é mais emotivo. Os dois tem uma agressividade que se traduz em humor. O Rafael é dramático, Noel é filosófico e pessimista.
Manter a espontaneidade do Rafael e trazer a tona características que nós queríamos pro Noel foi a proposta do treinamento. Muitas diferenças se foram quando passamos a tratar de um dos temas principais do filme que é a Iminência da Morte. Aí o Rafael sentiu o peso. Por que é fácil pensar na morte dos outros mas ver a fragilidade da sua própria vida o fez se tornar mais seco. Recuperamos sua alegria ao mostrar a liberdade transcendente da criação poética. Aí o Rafael começou a inventar poemas que infelizmente esquecemos de anotar.
Atuar é físico. O método que utilizo combina sensibilização e conscientização. Analise e espontaneidade. Criei esse método ao longo de vinte anos de pesquisa. O meu objetivo é reduzir o desgaste do ator e facilitar seus insights. Na prática é muito simples: respirar, estar mais atento aos seus sentidos, flexibilidade, concentração, espontaneidade. Para isso fizemos práticas corporais, conversa e improvisos. É trabalho diário, é convivência, é deixar se levar pelo material que origina o estória. É encontrar motivação pessoal para ir mais fundo.

Todo projeto novo é um desafio. Noel foi um desafio por que se tratava de um ícone da cultura brasileira e todos tem uma verdade a dizer sobre o assunto. Blindness, o filme que estou fazendo agora é um desafio por que não existe referência de um mundo assim e ninguém quer pensar em perder a visão. No Noel aconteceu uma coisa muito bonita. No dia que rodamos a última cena do filme, um carnaval no meio da rua em que o Noel doente se despede do mundo, apareceu o Delegado antigo mestre salas da Mangueira de noventa anos que havia conhecido o Noel. Ele se emocionou ao ver o Rafael e foi para rua sambar em homenagem ao Noel. Ficamos todos muito emocionados.

No Blindness eu trabalhei muito pouco com a Julianne Moore já que a sua personagem é a única que não fica cega. A minha função foi desenvolver  e ensinar a técnica da Cegueira para todos os outros atores e figurantes. No total umas seiscentas pessoas. E garantir que isso não influísse no atuação de cada um. Trabalhei mais com o Mark Ruffalo, com a Alice Braga, com o Danny Glover, com o Gael, entre outros e o que percebi foi o imenso respeito que eles tem por nós brasileiros e pelo nosso cinema. Foi muito prazeiroso trabalhar e conviver com eles. Eu creio que a diferença mais perceptível é que eles quase sempre estão num set de filmagem e essa experiência lhes permite serem mais econômicos. É um elenco incrível. Gostei muito de ver a descontração da Julianne fora do set em contraste com sua concentração na hora de rodar. Isso é um talento. Ela tem um pique incrível faz tudo com pouco esforço e sem ser demonstrativo. Se o nosso mercado de filmes crescer tenho certeza que vamos encontrar talentos como ela e como todos deste elenco.

Espero ter conseguido dar uma idéia do trabalho. O Noel que criamos sempre existiu dentro da gente e materializar ele foi o processo. Cinema é uma arte coletiva. Sonhamos juntos e quando sonhamos bem o sonho se dá. Minha função é alimentar os espíritos para que possamos sonhar bem depois. Pode parecer vago mas a subjetividade é inerente ao processo de criação artística é parte da técnica. A outra é materializar isso numa obra de arte.

Se quiser saber podemos nos falar.
Abraços
Christian

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