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O filme Jogo Subterrâneo foi o primeiro longa metragem que assinei como preparador de elenco. Eu já tinha trabalhado em outras produções como assistente preparador.

Também esse filme marca uma mudança radical na minha vida o  nascimento do meu primeiro filho.

http://www.youtube.com/watch?v=9KYvyjRFuhA

O diretor do filme Roberto Gervitz tinha seu método de trabalho. Ele gostava de estar a par de tudo que estava acontecendo e gostava de saber o que as pessoas pensavam do roteiro que seria filmado. A primeira coisa que me pediu foi uma análise dos personagens principais do filme.

Foi uma lição de casa e tanto já que minha esposa e meu filho estavam na maternidade enquanto eu tentava em casa organizar razão e emoção para fazer a tarefa que garantiria o sustento da casa. Já que após esta análise e meu plano de trabalho ele diria seu ok para o produtor me contratar.

Um detalhe é que estava há cinco ou seis meses sem trabalhar.

Me entreguei completamente. Na nossa reunião em que discutimos o material que produzi para ele concordamos em quase tudo. As personagens no seu roteiro estavam bem desenhadas e isso ajudou muito. E essa análise nos ajudou muito para começarmos a testar os atores para o filme. Se ele conhecia profndamente a motivação dessas personagens eu havia traduzidos isso num comportamento que não dependesse de uma razão psicológica. O que facilitaria uma leitura das ações dos atores, de suas qualidades e de suas diferenças com as personagens.

A personagem que mais precisou de estudo para mim foi a personagem Vitória, uma garota que deveria aparentar 7 anos e que seria autista.

O autismo é muito complexo. Não existe muita literatura sobre o tema.

Aprendi com uma mulher chamada Eliane (esqueci seu sobrenome), fundadora e diretora de uma escola para crianças autista e mãe de uma menina autista. Ela já tinha sido tema de um documentário que o Roberto dirigiu e foi a sua fonte de inspiração.

As crianças autistas não são muito expressivas. Na realidade elas não interpretam sinais corretamente e portanto não produzem sinais. Parece que a elas falta um elemento que gera nas outras pessoas aquilo que chamamos linguagem. Isso decorre em parte por que a elas falta uma assimilação do que seus sentidos percebem e transmitem para seus cérebro.

Vou tentar explicar, a reação a dor é produzida pelo cérebro e não pela sensação de dor. A dor gera um pensamento que constata que algo não está bem e que por isso damos um sinal ao nosso entorno de que sentimos dor. Mas se não conseguimos perceber a dor não obtemos estímulos para nos comunicar.

O meu trabalho inicial foi procurar uma criança que pudesse ser tão concentrada, tão harmônica no suas ações, que pudesse saber se isolar sem emburrar ou se aborrecer que podia nos parecer autista. Testei oitenta crianças e cheguei a quatro candidatas mas já sabia quem era. Roberto concordou e a Eliane avaliou.

Depois parti para um treinamento que pudesse ser ao mesmo tempo interessante para a criança e útil para nós. Pois o que ia fazer era desconstruir a sua linguagem, estimular sua capacidade de se isolar, fragilizar seu comportamento alimentando seu imaginário, desmontar seu modo de se locomover, estimular ela a ter uma reação extrema e auto-destrutiva. A grosso modo ela faria uma regressão para o comportamento de um bebê de dois meses, teria um ataque de birra de uma criança mal criada e não falaria.

Foram dois meses de encontros em que os mesmos exercícios se repetiam.

Combinamos que não diríamos nada para a Thávyne sobre o autismo mas óbviamente ela deduziu que a sua personagem tinha algo errado.

Deu certo e o Roberto me agradeceu muito.

http://www.youtube.com/watch?v=fWV_EN2xop4

Eu agradeço o Roberto pela confiança. E aprendi a confiar ainda mais em método para ganhar tempo e ter mais prazer.

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