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De 2002 à 2006 trabalhei na preparação de elenco da minisérie e do longa metragem Cidade dos Homens.

Foi uma experiência muita rica que ainda vou passar muito tempo descrevendo. À partir desta experiência conheci mais sobre a realidade social da favela sob uma outra ótica. Uma coisa é denunciar outra é trabalhar com um pessoal que vive uma realidade completamente diferente da sua em vários aspectos, positivos e negativos. Essa experiência me fez romper com vários preconceitos que eu tinha. Não só a questão racial ou questão social. Mas me fez pensar como eu quero ser tratado e como quero tratar meu semelhante. Na minha responsabilidade enquanto cidadão. Esse é um aspecto que vou tratar aqui nessa página. O outro é do próprio trabalho díario. Como manter o frescor, o vivo do carioca, sem ser folclórico ou ufanista.

O grupo principal começou no Cidade de Deus mas muitos atores foram sendo incorporados e em relação aquele filme que marcou a vida deles esse teria mais desafios. Uma dramaturgia em que os personagens principais são garotos e não uma cidade em guerra. Diferente do CDD aqui não é uma metáfora do desastre social do nosso país mas um retrato do cotidiano em busca de uma proposta para o futuro.

Entrevista por e-mail

Aqui uma entrevista feita em 2007 por e-mail para um orgão de imprensa da qual não me lembro mais.

+ Você começou a trabalhar com o Douglas e o Darlan quando eles tinham 11 anos. Agora têm 18. Como você descreveria a força deles como atores?

Além do talento nato é a honestidade, a capacidade de se deixar ver e uma disposição incrível. Eu acho eles muito corajosos. O que mais me encanta neles e a capacidade de entender e absorver a informação que damos para eles traduzindo para seu universo pessoal com muita rapidez. Coisa que só grandes atores fazem. Eles tem consciência de suas limitações, de suas dificuldades e de quem são.

+ Como vê sua evolução ao longo da série e da série para o filme?

Nesses sete anos eles superaram muitas dificuldades. A primeira dificuldade foi se tornar celebridade e ter de se superar a cada ano. A segunda dificuldade foi a sua crise de adolescente e a natural rebeldia que ela traz. E a terceira maior dificuldade foi sua origem pobre que derruba a auto estima de qualquer um.

A série CDH foi a sua escola e o longa é seu trabalho de final de curso. Hoje eles dominam o que fazem e ainda mantêm a espontaneidade de quando eram moleques. Eles desenvolveram consciência do que produzem e sabem se preparar para cada situação. Durante os quatro anos da série eles puderam entender o que é necessário para eles desenvolverem bem o seu trabalho.

+ Qual foi o método que você estabeleceu com eles?

Eu sempre fui muito rebelde, contestador e um auto didata que conseguiu estabelecer um método para organizar meu processo de criação. Esta experiência eu passei para eles. Eu nunca disse o que eles precisavam fazer para ser um ator. Eu deixei eles errarem bastante e desafiei eles em certos momentos. O nosso trabalho se pautou no diálogo e o meu objetivo foi torna-los independentes, capazes de analisar situações (o que eles sempre fizeram bem) e ao mesmo tempo agir pelo seu instinto. Para mim ação (movimento) gera emoção e pensamento. E aproveitando sua agitação natural estimulei eles a experimentarem tudo para poder encontrar o seu entendimento. Isso às vezes criava algumas crises que produziam bons questionamentos que revertiam para a cena ou para a história. Mas nunca dizia que isso estava certo ou que tinha que ser assim. Deixava eles com suas questões. Daí resulta que parece que eles escreveram aquelas histórias por que as questões das personagens se misturavam com as suas e isso os alegrava internamente por que sentiam que diziam algo que era sua verdade.

Os adolescentes tem um grande conflito moral e precisam de modelos. Eu sou ator também e fui um modelo para eles e um espelho imperfeito. Desde o 1º ano da série eu pensava que era necessário dar instrumentos para que eles não tivessem só que contar com a espontaneidade. Tratei de que eles se tornassem conscientes do que produziam envolvendo eles cada vez mais com que faziam. Fiz com que aprendessem a dialogar com as propostas da dramaturgia. A ver significados e traduzir isso para seu mundo pessoal. Tivemos muitas conversas sobre a vida, sobre o que estamos fazendo e o significado de tudo isso. Foi um processo de aprendizagem e de auto conhecimento.

+ Do seu ponto de vista, qual é a grande riqueza dos atores que CDH reúne?

A noção de que mesmo sendo indivíduos eles também são parte de uma comunidade. Eles tem talento e acreditam que o que fazem tem influência no meio que os cerca (É só pensar no trabalho dos grupos de teatro de comunidade fazem e o efeito que produzem). Isso poucos atores tem consciência. Em geral os atores tem consciência de sua função e se isolam do resto do mundo para viver o drama de seus personagens. Esquecendo que estes representam o drama do mundo. Ao contrário os atores de CDH sabem que seus personagens não lhes pertencem que são figuras do mundo das quais eles se apropriam para dizerem suas verdades. Isto lhes dá muita coragem para entrar nas situações e se deixarem ver fazendo coisas que eles mesmos não aprovam. Eles são guerreiros da paz. Todos são conscientes da grandeza do que estão fazendo e da consequência disto para sua vida pessoal. Eles são muito centrados e alegres. Mesmo nas cenas mais cruéis o que transmitem é o desejo de viver. Existe muito talento e esse talento foi canalizado para o bem do grupo. A força maior deles é certeza de que eles pertencem a uma comunidade. E que realizam a ponte do indivíduo para o coletivo e de volta para o indivíduo.

+ CDH, tanto a série quanto o filme, se beneficiam imensamente do fato de seus atores pertencerem ao universo retratatado. Qual é o papel do preparador no processo de caracterização de personagens e diálogos tão realistas?

O fato dos atores pertencerem ao universo retratado facilita o trabalho da direção na medida em que eles correspondem imediatamente a expectativa do público quanto imagem que se tem do lugar a ser retratado. Mas não resolve os problemas da dramaturgia. O meu trabalho é desvendar a temática, estabelecer as relações, as trajetórias dos personagens, ouvir as propostas individuais de cada ator, facilitar a comunicação entre direção e elenco…enfim cinema é uma construção cheia de detalhes. Eu adianto muito o trabalho do diretor que tem um milhão de coisas a realizar. Ao mesmo tempo retiro das costas do ator a pressão de encontrar resposta para tudo sózinho permitindo que ele possa experimentar as múltiplas maneiras de abordar um assunto, uma cena ou um diálogo. A personagem é uma interpretação que o diretor dá a um conjunto de ações e/ou imagens que o ator produz. Os diálogos surgem das ações, situações e informações que estão na história. O meu trabalho é levantar todo esse material e colocar os atores em ação.

+ O que muda, no teu trabalho, da série para o filme?

O tempo. Na série eu tinha pouco tempo para preparar os episódios em média 6 dias para preparar 26 ou 27 páginas de roteiro. E muitas vezes os roteiros tinham problemas para ser resolvidos nos ensaios. No longa pude trabalhar como gosto com mais tempo para desenvolver em conjunto a história. Foram 7 semanas para preparar 110 páginas de roteiro. Além de que eu não havia intervalos para filmar e o desgaste que isso traz. Pude experimentar mais e oferecer mais opções para o Paulo. Podíamos mostrar a cena num dia e trabalhar ela no dia seguinte com mais apuro. Além de que eu pude fazer um trabalho técnico com os atores para atender suas necessidades técnicas.

+ Segundo o Paulo Morelli, as cenas do filme foram lidas pelos atores e depois preparadas por você e os atores. Como funciona esse processo de preparar ou esquentar uma cena? Você pode nos dar um exemplo?

A natureza da função do ator é físico e a do diretor e do roteirista é intelectual. Ler uma cena é mais intelectual que físico. Os atores para entenderem uma cena precisam agir. Esquentar a cena é passar para a ação. Isto gera novos entendimentos e propostas. A idéia se materializa tomando corpo. Para você entender eu atendo as necessidades do ator e do diretor cada um gerando questões e propostas para chegar a uma estrutura provisória que possa fazer com que entendamos do se trata aquilo que estamos nos propondo a fazer em conjunto

+ Em relação ao que estava no roteiro do filme, muita coisa mudou na preparação das cenas? Além dos diálogos, cenas chegam a ser cortadas ou mudar?

Nesse roteiro não fizemos cortes. Os diálogos estavam bem escritos e os atores deram seu toque pessoal. O que fizemos foi aprofundar algumas propostas. Por exemplo: O Madrugadão se tornou mais manipulador. A relação Acerola e a Cristiane menos explosiva e mais intimista. No geral colocamos mais contradições nas personagens o que tornou eles mais interessantes.

Um pensamento em “Cidade dos Homens (2006)

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