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Os Atores e a Oficina dos Novos Capitães.

Os meninos da Bahia.

Quanto aprendi.

Continuem feios…por que a beleza se conquista!!!

Esse o aprendizado do livro…dessa experiência de formar noventa jovens atores em dois meses.

O Baiano é contemplativo…aqui em São Paulo ninguém entende.

Aqui a gente olha o umbigo.

Os meninos gostaram de eu ter olhado para eles sem julgamentos,

sem formulas feitas, sem medir ou comparar.

Os meninos gostaram de eu ter lançados desafios.

Eu fiz um processo que eu gostaria de ter tido

e que talvez tenha tido quando ainda era moleque.

Macaco, pateta que nem eles.

Só que ninguém folga com eles que eles mordem.

Por que eu não domestiquei ninguém nem alimentei sua revolta.

Orientei para a criação. Para a liberdade para o Caminho da Paz.

Mas não passividade ou dependência.Vou reeditar os textos do processo.

30/04/2008

Novas Aventuras

Já está certo e posso comentar. Vou para a Bahia na segunda feira começar um projeto que esperei muito.
Os Capitães de Areia.
Adaptação do livro homônimo de Jorge Amado, a ser filmado em Salvador com a direção de Cecilia Amado.
O bacana deste projeto é que envolve uma oficina para uns noventa garotos vindos de diversos ongs e comunidades.
É um projeto inédito, na área de audiovisual, naquela cidade.
Para mim é bom momento para desenvolver um projeto educacional.
Este é um tema que me atrai muito por que acredito que a raiz de todos os problemas sociais esteja aí.
Mas deixo isto para os especialistas.
Estou feliz.
Ontem dei uma palestra e dei meu testemunho de fé, daquilo que me motiva a fazer este trabalho:
Transformar o Mundo!
Assustei várias pessoas que esperavam algo mais artístico ou menos político.
Para ser artista é necessário ter vocação e capacidade de se ver e ver ao seu redor.
Me acompanhem por que nessa aventura espero poder manter um díario de todos os eventos.
Me desejem boa sorte.

08/05/2008

Capitães da Areia – A Chegada.

Vôo 3600 da Tam com destino de Salvador.
No exíguo espaço da cabine começo a escrever o que será um díario de bordo dessa nova aventura chamada Capitães de Areia.
Amanhã vou conhecer uma parte do grupo dos noventa meninos que participarão de uma oficina de cinema mas que eu chamei de oficina da imaginação.
Estou cansado, levemente resfriado e curioso. Mas nada ansioso.
Feliz por ter conseguido embarcar.
Venci uma das minhas maiores resistências que é fazer a mala.
Consegui me organizar para os próximos meses já que ficarei umas dezesseis semanas por aqui.
Prefiro dizer que eu não conheço Salvador já que as duas muito breves visitas não me permitarem ver muito da cidade.
Acredito que com minha aparência de norte europeu serei tratado como gringo até que eu assimile o sotaque e consiga ao menos quando abrir a boca me livrar deste preconceito.
A proposta da oficina é dar instrumentos para que os garotos possam compreender o que faz e o é ser ator para que possam ser criadores da suas próprias histórias.
São garotos pré-adolescentes que provavelmente estarão fazendo sua primeira incursão nas artes do ator.
Eu quero ver de que modo vou integrar a capoeira ao meu trabalho.
Imagino que a minha proposta de fazer o menor esforço e desgaste seja bem recebido aqui.
E sobretudo aquilo que sempre busco que é a alegria e o prazer de realizar.
Bahia de Todos os Santos
de todos os conflitos
origem de uma nação
porta de entrada e de saída do Brasil.
————————————————————————-
Primeiro dia de aula.
Estou numa locação super bonita, um forte no alto do Barbalho.
Acordei e vi o mar da Barra, o Farol…
Enfim mais horizontes que a minha querida paulicéia.

Pode ser uma impressão mas acho os meninos aqui mais relaxados.
Alguns já fizeram teatro, mas a maioria está começando.

Terceiro dia.
A situação é 6 grupos de 15 alunos, aulas de duas horas, a cada dois dias eu avanço no programa.
É uma situação parecida com a do Blindness em que trabalhei até 10 grupos de vinte pessoas ou seja repeti a mesma aula 10 vezes.

Para quem já deu aula entende que isso é muito difícil sobretudo se o intuito é eu conhecer os alunos e dar um tratamento individualizado.
Interessante é perceber o alto grau de concentração e desejo de saber que esses meninos vindos em sua maioria de ONG’s que fazem um trabalho de educação com arte e valorização da vida tem. Para mim isso reforça a tese de que educação com afeto é mais efetivo. Alguns deles já ocupam funções de educador multiplicando o que receberam.

Eu ainda não assisti a aula de capoeira mas conheci o Mestre Barba e sua simpatia. A minha assistente Marina está todad quebrada depois de duas aulas de capoeira angola. Os meninos também reclamaram de dores no corpo. É uma atividade puxada. Eu aproveito este momento de aula de capoeira para preparar as próximas aulas. Se bem que todo o planejamento já esteja feito e temos um roteiro de aulas pronto.

Hoje chove muito e são mais de nove horas da manhã. De um grupo de quinze alunos só dois chegaram. Ruas e avenidas alagadas. O transporte público vai a nocaute com a quantidade de água que cai. Pelo que sei chover aqui não é novidade nem é o descaso com que governo local lida com o problema. Vamos ver quantos chegam…

Escrito por Christian Duurvoort às 09h23

14/05/2008

Sonhos


Na semana passada ao terminar a aula Silas, um aluno da última turma veio falar comigo. Começou falando que era quieto e que aprendia assistindo se isso não o prejudicaria. Claro que não, respondi, e não faça nada para se agredir ou contra a sua vontade. Daí ele me disse que tinha medo de sonhar por que o sonho não poderia dar certo. Entendi bem o que ele estava me dizendo e disse que o importante é viver o agora. Viver seus quinze anos.
Essa angústia do futuro só poderia ser superado se entregando agora e colhendo o que o presente tem para dar. É difícil olhar para o tempo e pensar onde estaremos daqui a dez anos. No caso dele tem muito haver com a oficina e a possibilidade de estar no elenco do filme ou não.
Meu trabalho tem sido esse fazer com que eles deixem de pensar tanto no filme e nas suas outras consequências para se beneficiarem do presente.

A maioria sonha em dar a sua família um lugar melhor para viver, uma condição melhor para si e para sua comunidade. Claro que há os sonhos de consumo e o consumo também. Existe também o sonho de ser alguém, ser visto e estar na tela. Este último é comum a maioria dos que estudam para ser ator. O artista que seu reconhecimento. O que difere é a consciência que eles tem de sua condição social, de que eles podem mudar a condição de seus pais acrescentando qualidade de vida, algo que na classe média é diferente. Não saberia dizer se é bom ou ruim mas que é fato que poucos expressam. Em relação a comunidade, ao lugar que vivem as opiniões também diferem…
Pode ser que tenham dado tanta importância a isso por eu ser uma pessoa de fora e que com isso querem que eu fique atento a seus problemas. O que também é válido.
O segredo tem sido reduzir a distância, facilitar o díalogo e a transmissão de experiência para não criar uma via de comunicação de mão única. Estabelecer para mim que as dificuldades são similares variando de grau, de localidade e de idade.
Depois de tantos trabalhos já não me impressiono mais mas me solidarizo. A violência, a carência, a frustração, o desejo de transformação….são temas que também me tocam e que reflito díariamente sobre elas.
Para mim a distância que criamos dos tais problemas sociais é uma ilusão. Vivemos na defensiva e deixamos de viver a nossa vida. Claro que uma mudança de atitude pedirá uma nova maneira de ver e lidar com os problemas do cotidiano.

Esta semana eles estão mais à vontade. Puderam me ver durante dois dias e avaliar se é isso querem fazer. Pouco à pouco estão formando grupos e entre eles está aumentando a confiança.

Trabalhamos o olhar, como efeito físico e suas consequências na formação do pensamento. Ao invés de contra as piadas, utilizei como ferramentas para mostrarem como o olhar pode enganar e mostrar que eles tem medo ou preconceito de algo. Isso os fortalece e os motiva a se flexibilizar. Eles vencendo este medo podem se deixar ver diante do grupo.

Os temas do filme são universais: amizade, sexualidade, sobrevivência, organização social, rito de passagem.

Quem lê pensa que é uma aula de faculdade…mas não é nada disso, tudo é muito alegre como a roda de samba improvisado que rolou depois da aula.

Escrito por Christian Duurvoort às 12h12

26/05/2008

Axé


Semana passada visitei o projeto Axé.
Fiquei encantado. Vimos o trabalho feito com os menores de 12 anos até os de dezoito. A proposta é oferecer uma formação artística de alto nível capaz de transformar realmente a vida destas crianças. 
Diferente do que propõe o poder público que simplesmente trata de ocupar o tempo destes meninos sem realmente poder se concentrar em como isto é feito.
Eu gostaria de ter feito uma escola de artes assim. E ter uma escola que desenvolvesse o senso de comunidade.

A primeira semana foi a semana de eu poder conhecer eles, a segunda foi deles poderem me conhecer e perceber para onde quero ir, a terceira foi de trazer motivar eles para irem mais longe e acreditarem no seu potencial.
Tenho uma turma de terça e quinta de manhã que é tida como a mais difícil.
Um dos problemas é a boca, falam coisas preconceituosas e se cutucam com palavras.
É a única turma só de meninos. Tem um garoto que na primeira semana fez um personagem gay. Essa semana cansado de tanta brincadeira pediu ajuda. Acontece que ele fez isso por provocação e mesmo depois da aula continuou. Os outros meninos não encontrando nada melhor para dividirem sua atenção se focaram nele.
Tem um outro menino muito sério que não suporta brincadeira ou apelido. Claro que existe um outro garoto que é o oposto dele e não pára de provocar este. Tudo na brincadeira.
Quando a tensão chegou no máximo, intervi. Chamei a atenção de todos. Abrimos a roda para todos falarem e expus para eles o poder da palavra e como nos escondemos atrás da brincadeira. Como também nos colocamos no lugar de vítima e nos omitimos. Como também temos que sustentar nossas ações.
Enfim disse que a palavra transforma o meio que eu acredito na transformação pela arte e que eles para serem atores deviam ser conscientes de seu atos.
Aproveitei esse momento para associar com o trabalho do ator que não é um trabalho inconsciente nem é emocional. Gera emoção, alegria, prazer, tristeza, evoca lugares e sensações mas não é gratuito.
O que foi mais positivo nessa semana é que em quase todos os grupos houve crescimento e aceitação de exercícios tão simples como respirar, bocejar e espreguiçar. Elementos básicos da minha técnica e que apesar de serem corriqueiros tem um conteúdo importante para o bem estar do ser humano.

16/06/2008

Ensaio de Cinema


Eu deixei no carro de um amigo o bloco onde anotei o post de hoje.
Escrevi na semana passada. Publico quando recuperar o bloquinho.
Ainda me faltam os óculos mas vou errando ao catar letra no teclado e
não prestando muito atenção ao que escrevo.
A oficina teve uma semana intensa para mim. Para os aluns foi um tira gosto do
que será estar num set.
Vários ficaram com frio na barriga. Cansados também. Conheceram um momento de maior pressão. Tanto externa quanto interna pois todos querem fazer o melhor e eu me empenhei em conseguir boas tomadas.
Foram aproximadamente quarenta cenas, cada um com quatro planos, feitos durante os últimos dois dias de aula. Teve um ensaio com câmera no começo da semana em que os alunos se revezaram como cinegrafistas. Alguns demonstraram talento e sensibilidade para fotografar. Eu orientei eles mas dava liberdade para que pudessem sugerir.
O objetivo do exercício foi aplicar o que fizemos na sala de aula aproveitando a locação do Forte do Barbalho. As cenas foram ensaiadas e comentadas na terça e quarta. Na quinta e na sexta foi para valer. Eu reforcei que a responsabilidade pelo produziam seria deles o que aumentou o desafio.
Acredito que eles tenham aproveitado muito e nessa semana essas imagens vão ser vistas depois de terem sido editados. Quero que eles entendam o processo todo do cinema e consigam se ver.
Faltaram alguns elementos fundamentais tais como a arte, figurino, vestuário, uma intereferência maior na sua auto imagem. Porém para alguns tirar o boné e mostrar seus cabelos longos, sem corte foi duro.
Pessoalmente valeu o sacrifício de sair da sala de aula e me colocar na posição de diretor. Todos levaram sua bronca, ouviram reprimendas quanto ao silêncio, para que fossem mais rápidos ou que não ficassem em quadro. Muitos puderam também ser assistente de câmera fazendo notas de cada take ou serem o encarregado da claquete ou ainda segurar um isopor e rebater a luz para melhorar a fotografia. Eu passional como sou e cabeça dura quis seguir o cronograma captando todas as cenas no prazo estipulado sem repetir a mesma encenação ou plano. Foi um super exercício para mim.
Agradeço muito a Marina por ter controlado a situação fora do set. A Lara Belov que fez a câmera e ainda cuidou para que as fitas chegassem em ordem ao editor.
E o empenho do pessoal debutando como atores diante da câmera.

Escrito por Christian Duurvoort às 12h26

01/07/2008

Novos Capitães

Novos Capitães

Novas aventuras, novos sonhos, novos desejos

Por que precisamos de novos capitães?

Prá resgatar a infância e liberar a adolescência.

Prá olhar para dentro de cada um e se ver tão exposto diante de um mundo que desde o começo sempre foi cruel.

Prá ver sua cor e chorar sua condição. Prá sonhar com um mundo novo.

Precisamos não passar rápido pela infância como são passados nossas crianças e chegaram na adolescência com uma bagagem pesada que arcas seus lombos.

Nem tudo é festa.

Pipoca e pipoco.

Bandeirinha e dando bandeira.

Ter tudo e não ter nada.

Passagem de tempo.

Os corpos desabrochando em tantos hormônios e quanta solidão.

A ser continado…

Escrito por Christian Duurvoort às 13h55
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29/06/2008

Olhando o Mar


Estou na Bahia
No umbigo do Brasil
fechado em si mesmo
nos seus mistérios
conflitos e encantos.
Com dificuldade de se olhar
mas preso ao espelho
e olhando com receio para frente e para trás.
A Bahia que não quer crescer para não perder
um estilo de vida que tem tudo de bom
e tudo de ruim.
Estou conhecendo pelas beiradas
e vendo por onde tudo começou.
Como a praga de nosso passado perdura
e preconceitos não se movem nem com a força de todos os Santos.
A alegria e o medo de ser feliz.
De perder algo que deseja e ainda não teve.
De sentir-se injustiçado pela história e vaidoso de suas conquistas.
A Bahia é o Princípio. Por isso de tudo nela há.
O Tempo cessou de passar mesmo se o vento que vem do mar
tudo leva consigo.

Guerreiros da Paz.

Escrito por Christian Duurvoort às 22h50

14/07/2008Novos Cursos e mais CapitãesTem curso no Gafanhoto do dia 15/9 à 26/9 das 10 às 13h
Entrar em contato com Lili
lilianeferrari@gmail.com
e no AIC do dia 29/8 à 10/10 em dois horários: 10 às 13 e 19 às 22.
Entre no site deles…me falta o endereço mas já volto.
Agradeço o carinho dos alunos que participaram de toda a oficina. E dos que me escrevem aqui no blog.
Estamos na fase de preparação. Encontramos na Bahia os protagonistas. São jovens sem experiência…iniciantes como diria um deles, encarando uma aventura.
Barril!
Todos levaram seu susto inicial. Cinema não é só glamour. Pode ser uma fábrica de ilusões mas depende do ponto de vista.
Uma coisa que é importante é que não perdemos o nosso ponto de vista.
As ONG que nos apoiaram e formam esses meninos tem muito mérito e fazemos com que os meninos não se iludam com o cinema e após o
filme continuem trabalhando. Multiplicando o que aprenderam e incentivem outros garotos.
Vi alguns garotos saírem felizes de não terem sido escolhidos por que alcançaram mais que seu objetivo.
A oficina foi uma experiência de vida. Para todos.
O cinema tem sido um bom meio para realizar um trabalho próximo ao público, compartilhando com a comunidade o conhecimento.
Pudera houvesse mais propostas como estas.
Assim como mais ONG’s que fazem um trabalho de arte educação. Escrito por Christian Duurvoort às 20h41
28/07/2008Entrando no DesconhecidoResumindo tudo desde o fim da oficina.
Começamos uma outra oficina para chegar aos doze atores que assumiriam a responsabilidade de serem os protagonistas do filme.
Ao fim de uma semana já estávamos com material suficiente para dar um parecer e decidir o que seria uma despedida de um momento de todos serem iguais para passar a cada um cuidar de uma função dentro do conjunto.
O anúncio foi feito com alegria, recebida com emoção e conformada com muitos abraços.
Leiam a matéria publicada no jornal A Tarde para terem uma idéia de como foi.
http://www.cservice.com.br/base1/imagemfilmes/F6219.htm
Por sinal essa matéria e o fato da imprensa acompanhar serviu para a próxima fase de preparação do filme. Todos receberam carinho de seus companheiros de oficina mas também de escola e de comunidade. Os pais daqueles meninos ficaram orgulhosos dos seus filhos e puderam compreender o tamanho do seu feito.
Comecei a preparação com uma provocação dizendo que eles eram feios e por isso foram escolhidos para serem os protagonistas. Isso tocou eles fundo. Eu ainda disse a eles que eles ainda não eram Capitães da Areia e por enquanto os únicos Capitães eram a Marina, o Ranmsés e eu. Que eles eram uns patetas.
E são….assinaram um contrato sem ler as letrinhas miúdas! Saíram no jornal sem sequer terem rodado uma cena e já conseguiram ser celebridades em seus lugares. Mas ser Capitão é muito mais. Tive que dar mais uma chinelada na imagem glamourosa que fazem do cinema e de seu futuro para fazerem olhar para onde estão caminhando. Fazer entender que com marra não se faz um personagem. Que a função daquela história é muito importante para nossa sociedade e que o que eles estariam teria uma importância maior ainda do que aquela notícia de jornal. Mas que estar onde estão agora é um grande feito da qual eles tem mérito sem desmerecer os outros.
A primeira semana dessa vida nova foi estranho. Sessões individuais para a maioria onde descarregava todo o contéudo de sua jornada e mostrei semelhanças/diferenças, aspectos positivos/negativos deles com seus personagens.
Para mim a personagem é um veículo para dizer algo. Mas o quê?
Isto eles estão aprendendo na medida em que conto a trajetória de cada personagem e essa trajetória dentro da história toda. Em que mostro a importância das relações entre os personagens, os preconceitos que terão que lidar, os desafios que terão que superar, os abismos em que vão cair.
Mostrei tudo isso para que começassem a pensar em si.
O seu livro de consulta são eles mesmos. Tudo que não esitver ali terá que ser aprendido, conquistado ou mesmo escrito por eles mesmos. Que os instrumentos dados na oficina serão seus utensílios para poderem viajar.
Novos Capitães. Novos Desafios.
Respirem meus amigos. A fábrica de monstros está apenas começando.
…..
Anteontem caminhando pelo shopping ouvi gritos de muitas crianças juntas. Era um Castelo de Horror que havia sido montado ali. E no cartaz dizia que lá era o único lugar em que os filhos podiam gritar com seus pais. Ao ver a galera saindo se via que eles tinham se divertido muito e estavam com cara de quero mais.
Essa é a cara dos meus atores. Ninguém sofre. Mas às vezes se assusta com seus próprios gritos e monstros que tem dentro de si.
O ator é aquele sujeito que sai da sua zona de conforto e voluntáriamente vai para a zona de conflito.
Um por um perguntei se eles gostariam de viver na rua, deixar seus pais, suas casa…. Eles responderam que não. Então retruquei dizendo que eles não queriam ser Capitães da Areia por que eles moravam na rua, eles assaltavam, eles passavem necessidades mas vocês por mais difícil que seja sua condição social ainda não estão lá.
Ficaram espantados.
E agora? Tudo que vão ser no filme são uns miseráveis, desgarrados que a sociedade que ver pelas costas. E que ao mesmo tempo lutam para encontrar um tratamento digno mesmo sem saber o que isso significa.
Com isso mostrei uma porta de entrada para serem Capitães da Areia.
Aceite o desafio de se olhar sem um espelho e isolado do mundo para a Beleza e Horror de cada um de nós. Olhe para sua vida e vê o que está fazendo, o que você quer aprender com essa experiência. Perceba a sua dificuldade de assumir um lugar nesse mundo, perceba a necessidade que tem de afeto, de conhecimento, de espaço para crescer.
Esse processo de amadurecimento deles é belíssimo. Mas eles vão continuar sendo feios e cada dia mais feios, sujos e malvados. É pelo contraste, pela transgressão do senso comum, do jogo de significados que se faz poesia que desafio o ser humano a decifrar o mistério.
O que faz uma criança apesar de sua condição ainda brincar? O que há por detrás da beleza das fachadas da velhas casas da rua do Comércio, da encosta da Montanha…da flor que é a cidade de Salvador que pulsa vida onde só há declínio.
Explicar isso é o que cada personagem faz nesse filme. Escrito por Christian Duurvoort às 08h29
16/08/2008Rompendo o cordão umbilicalVôo Gol 1940 de Salvador para Guarulhos SP.
Rompendo o cordão umbilical.
Vou me afastar dos Capitães da Areia por três semanas para me dedicar aos Filhos do Carnaval 2 no Rio de Janeiro.
Tem um gosto de fim de processo essa volta a sp. Os meninos se deram conta disso nessa semana. Acho que caiu a ficha de que o contei para eles durante a oficina e os ensaios não é conversa mole de adulto querendo controlar o mais jovem. Eles tiveram sua primeira experência da realidade do cinema indo ensaiar na locação onde será o Trapiche (Uma ruína a beira mar onde os Capitães se escondiam) uma das cenas mais dificeís do roteiro. Nervosismo, travas, fome e muita informação para processar rapidamente. Foi um susto. Pior foi o dia seguinte em que voltamos a ensaiar no Forte do Barbalho com a Cecilia. Lá eu tive que gritar para eles acordarem e não se deixarem levar pela timidez ou pelo desanimo adolescente diante da dificuldade. Quem me conhece sabe que eu não costumo gritar mas eu vi que eles estavam querendo ficar dependentes de nós (Cecilia e eu) para tudo. Que queriam ficar na zona de conforto e não entrar no conflito. A novidade nem sempre chega suave. Eu havia feito meu trabalho e alertado todos pelo que viria adiante mas precisava empurrar eles pelo precipício para dentro da aventura.
Deixei Salvador num momento delicado mas estou certo que minha ausência vai abrir espaço para que eles voltem a lutar por si.
Mais uma rasteira garotos…
Dessa vez eles vão começar a realmente cuidarem de si. Escrito por Christian Duurvoort às 18h27
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11/08/2008

A meio caminho

Na realidade estou mais perto do fim da minha participação direta nos Capitães da Areia.
Para ser preciso nesta sexta feira vou para São Paulo e de lá vou para o Rio começar um outro trabalho.
Deixo a Marina minha assistente trabalhando aqui dando continuidade ao que foi plantado.
Hoje vamos ensaiar na locação “Trapiche”. Vamos todos ficar o dia inteiro lá. Assim eles vão sentir o clima de uma díaria.
Acredito que será muito bom para eles. A adrenalina vai subir e poderão compreender mais um pouco qual é o sentido de tudo isto.
Os personagens estão quase todos lá. Fizemos um trabalho duro de olhar para dentro de si. Conhecer seus monstros e dialogar com eles.
Desde o começo dos trabalhos disse que eles eram feios e assim continuarão sendo até o fim da filmagem.
É o curso da vida.
As personagens são os veículos através das quais transmitimos idéias, conceitos e valores. As suas ações revelam mundos com suas diferentes paisagens e abismos.
O movimento é a ação. A aventura é o alimento para o espírito que se vê diante da grandeza do destino.
Técnicamente falando o ator precisa se conhecer. Ampliar suas capacidades físicas e mentais. A dramaturgia é uma bomba de efeito retardado, vai explodindo aos poucos dentro
de cada um. A concentração necessária é igual a capacidade de lidar com muita informação e estímulos. O treinamento revela alguns dos segredos da dramaturgia.
Outros se desvendam na ação. Outros só depois de tudo terminado.
Acreditem ou não tive esses papos com os meninos. Às vezes eu sei que foi difícil eles me seguirem mas estão vindos comigo.
Os exercícios físicos, principalmente os de respiração e de interação serviam para que pudessem explorar elementos da dramaturgia sem cair na repetição ou na ansiedade de produzir resultados.
Ora voltando-se para dentro ora voltando-se para as relações entre seus pares.
Treinamos nossos sentidos que são as regiões do nosso corpo que fazem a comunicação entre o cérebro, membros, orgãos…

Escrito por Christian Duurvoort às 07h29

30/08/2008

Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo

São Paulo, Rio, Salvador…
Estou me desdobrando entre essas 3 cidades.
Em Salvador a minha valente assistente Marina está cuidando.
Lá tudo é novo. Há muita insegurança e ao mesmo tempo muita
conquistas. Há um tempo para que a informação seja processada e se possa
voltar a espontaneidade, a aquilo que aos outros parece natural mas é totalmente construído. Nada é aleatório. O que é ocorre é que os movimentos tem um organização, um direcionamento, diversidade, camadas…que revelam uma outra compreensão do que se está fazendo. Cinema é equipe se bem que existem pessoas que tomam decisões que influem muito no resultado. Daqui eu administro o que acontece lá. A maior parte do trabalho de preparação já está feita. E o que se está fazendo agora é entender o filme que vai se fazer. A dramaturgia em movimento para se fazer uns últimos ajustes tanto na maneira de se abordar quanto no tempo e na quantidade de coisas que vão estar ali. Esse processo só vai terminar no último corte do filme. Quanto aos nossos jovens atores eles vão ganhando experiência, acumulando conhecimento e se tornando mas confiantes na suas capacidades. Mas que eles não comecem a pensar que vou chamar eles de lindos…
Rio de Janeiro
Roteiro…é um guia. Quanto mais elementos para formar imagem nas pessoas que vão ler mais interessante é. Nos Filhos do Carnaval, são sete roteiros para episódios de mais ou menos 50 minutos. As descrições das cenas são muito inspiradores e são cheios de ação, movimento.
Um personagem não é só uma psicologia ele se insere num meio social. É importante fazer uma abordagem antropológica do personagem e também do que se está vinculando com ele. Tudo isso eu traduzo em exercícios. A realidade social do Rio de Janeiro é complexo e cheio de armadilhas. É triste por um lado e ao mesmo tempo tem senso de humor. Os personagens são pessoas que pertencem a esse universo e que lutam com esse pathos que o meio traz.
São Paulo.
Enquanto escrevo meu filho toma banho e por sinal é melhor ver o que se passa por que ele deve ter derretido.
Tempo é uma invenção, uma forma de mesurar ações e situá-las no espaço sabendo que um corpo não pode ocupar dois espaços ao mesmo tempo.
Vou lá…

Escrito por Christian Duurvoort às 21h23
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24/08/2008

Relatos de Duas Cidades

Pelo relato que me fez a Marina dos últimos ensaios os meninos estão progredindo. Eles estão mais participativos, com fragilidade mas com mais presença e até dando sugestões. O problema no cinema é sempre esse o diretor é muito requisitado, cada equipe com sua demanda de atenção, o que afasta o diretor um pouco do universo da história. Sem medir palavras tudo só faz sentido quando o ator está lá. É ele que carrega a dramaturgia e que preenche o quadro com vida.
Eles estão começando a crer na ficção e se entregarem a esse absurdo que é fazer parte da construção de uma história. Isso me deixa feliz.

Na últimas semanas antes de deixar Salvador eu dizia ao meninos que a técnica serve para fazer menos esforço. Que estar em si e fazer por si é mais importante do que decorar o roteiro. Se deixar levar pela história e estar presente é mais forte que atuar ou interpretar o que está escrito. Havia muita ansiedade por parte deles em ter o roteiro, em decorar as falas, em acertar. Daí sai com essa frase:

Quanto menos controle mais domínio.

Se deixem levar pela sua imaginação desde que ela continue no presente.
E deixe o diretor dirigir. A mesma frase vale para a direção: deixe os atores agirem.
Por que quando se tem técnica e se conhece aquilo que se vai realizar é mais fácil deixar de ter contrôle (que no ator se traduz em auto direção ou pior em auto crítica). Daí a importância da preparação. Por que durante a preparação vamos desmontando a dramaturgia e mapeamos temas, relações, situações…qualidades e defeitos.
Temos a tendência de todos querermos nos pautar pelos resultados ao invés de nos entregarmos ao momento tendo em vista um lugar que se quer alcançar. Muitas vezes se diz “tenho que” quando o melhor seria dizer “eu quero”. Certeza nunca há num processo criativo. Alguém que se lance na criação precisa entender seus critérios e ver se eles são compativeís com a função que se quer exercer.

Um ator precisa conhecer a matéria com que está lidando, aquilo que o roteiro apresenta em ideias para poder se disponibilizar para aquela proposta. E se motivar para ir mais fundo, trazer algo pessoal e único.

Estou no Rio de Janeiro trabalhando com uma porção de atores que já conheço. Continuo respirando e trabalhando a flexibilidade deles..Trazendo algo técnico e de conteúdo que possa somar com seus conhecimentos e percepções da história. Para muitos é voltar para um momento muito prazeiroso que causa certa ansiedade. A série Filhos do Carnval foi um exito e quem viu elogiou muito o elenco. A maioria tem muita experiência mas mesmo assim existem novidades. Os atores que participaram da primeira temporada conservam em si muito do que aprenderam com os primeiros episódios. Os personagens são intensos e os atores conquistaram um espaço incrível para eles. Continuaram trabalhando muito e receberam muito reconhecimento por este trabalho mesmo se os Filhos do Carnaval não tenha sido muito assistido por estar num canal exclusivo no cabo.

Entrar na ficção não é fácil. É muito fácil cair na fórmula pronta. Aqui no Brasil a fórmula é a televisão. Estamos encontrando outras propostas mas o valor que se dá ao texto escrito, a informação ao invés da ação e da imagem ainda é desproporcional. Cinema é movimento e síntese. Na edição pode se acelerar ou ralentar uma cena mas se ela não estiver escrito com consistência vai dificultar o trabalho do diretor e dos atores.
O bom é que estamos produzindo mais e mais.

Escrito por Christian Duurvoort às 20h40

11/09/2008


Aqui em Salvador a contagem regressiva.
Faltam menos de dez dias para começar a rodar…aí é outra história.
Não vou participar. Preparei os meninos para isso e sei que eles vão mandar bem.
Fico de olho no desgaste e ensinei para eles maneiras de se concentrar com muito pouco esforço.
A dificuldade do ator no set é que ele precisa ficar com o motor ligado o tempo todo mesmo se o carro não está em movimento.
Mas o rendimento é um mistério. É algo que o ator precisa administrar mas também a direção.
Existe um limite a ser respeitado do que é a pessoa pode fazer num dia. Para quem nunca esteve na frente da câmera não consegue ter um parâmetro
do esforço que se faz para manter uma “naturalidade” dentro da absoluta artificialidade. Quem dirige começa a entender isso depois do seu primeiro ou segundo
longa.
Os atores, agora eles são atores, estão bem tanto físicamente quanto psicológicamente quanto espiritualmente para a filmagem.
Eles ganharam mais corpo. Não é musculatura nem é peso mas é volume e movimento. Não consigo descrever aqui só vendo num curso.
Eles acreditam neles.
Hoje eu quase falei por que chamei eles de feio…se alguém souber pode me responder aqui nos comentários.
Todo ator é feio!!!!
Essa constatação veio aqui. Mas não precisa dizer isso é do personagem e depois chegar no bar e falar: eu sou lindo!
Estou quase entregando mas como sei que os meus meninos lêem esse blog…vou me calar.

No dia 22/9 vai começar a oficina O ATor Imaginário lá no Gafanhoto.
Proposta

O objetivo do curso é abordar a técnica de interpretação e de preparação de atores no cinema ensinando o aluno a economizar tempo, desenvolver uma estratégia, diminuir o desgaste e manter o fluxo criativo.

O curso se desenvolve seguindo o mesmo roteiro utilizado para a preparação de elenco num longa. Cada etapa é experimentada e comentada. O trabalho prático é acompanhado de uma apresentação teórica e de sua aplicação dentro da preparação. Dois pontos fundamentais neste percurso são: como pensar o casting e como analisar o roteiro do ponto de vista da dramaturgia.

PROGRAMA: Casting e Testes, Treinamento Físico e Mental, Estudos de temas, Planejamento, Construção de personagem, Abordagem de Cena/ Roteiro, Estrutura e Improvisação, Díalogo. Há exercícios com câmera, mas não haverá gravação de cena.

Christian Duurvoort preparou atores no mais recente filme de Fernando Meirelles, Blindness e também nos seguintes longas-metragens Jogo Subterrâneo, Noel O Poeta da Vila, El Baño del Papa, Não por Acaso, A Via Láctea, Cidade dos Homens, Um Homem Qualquer e dos seriados de televisão Cidade dos Homens e Filhos do Carnaval. Foi professor convidado da Escuela Internacional de Cine Y Television de Cuba. Estudou em Paris com Jacques Lecoq e Monika Pagneux. Atualmente realiza preparação de atores para o longa Capitães da Areia e para a minissérie da HBO Filhos do Carnaval II.

10 encontros

27/09/2008

Ecos

Oi Christian…

Ontem,no meu primeiro dia de filmagem…

Que foi consideravelmente tranquilo …

Achei que foi bem Relax,pelo fato de ser uma cena pequena…

+ hj…

Foi muito mais cansativoo..

e ja descobrii um problema, a questão da resistência…

“Como Faço pra resistir com aquela mesma intensidade,e passar do msm jeito a cena dps de hras…?”

O exercício de respiração ajuda muitoooo.. mass….

acho q falta algo…[ nao sei,posso estar enganado ]

eh isso…

Mas uma vez,agradeço por tudo!

Forte abraço..

Atenciosamente…

Heder

Para o cansaço físico só existe um remédio…ser econômico e com o tempo o corpo, a mente se adaptam. É um ritmo novo. Lembra do que eu falei de que cada cena tem uma musicalidade e lá pelas tantas ela te conduz. É isto. Outra coisa deixa a Cecilia julgar se o trabalho tá bom, se precisa de mais…faça o seu e isto te dará mais energia para estar presente o tempo todo. Tem certas horas que é melhor ser ‘cego’ e ‘surdo’ para não ter que interagir tanto com tudo que está a sua volta e que nem sempre é do seu interesse. Avisei que cinema é barril!!! Coragem e se entrega meu amigo.
Abs
Christian

As primeiras notícias de uma longa jornada. Experiência só se conquista com tempo e experiência.
Às vezes é necessário confrontar-se com uma situação muito difícil para alcançar o que se almeja.
Sei que os meninos estão bem preparados…mas tudo é novidade e lidar com o novo é desgastante.
Acredito que com a rotina eles possam se fortalecer mais um pouco.
Não há como prever como a equipe de direção vai lidar com o set. Eu preparo para que os atores possam ser econômicos e disponíveis mas
há uma série de fatores que influenciam o trabalho do ator.
O set é um lugar tenso. Porquê? Por que ninguém gosta de perder, de abrir mão, ou mesmo de aceitar aquilo que não foi planejado.
O Tempo joga contra e ele é implacável por que nada interrompe seu curso. Isto gera ansiedade. Decisões precisam ser tomadas logo e ninguém quer ser
o responsável por atrasar o set. Um dos segredos está na comunicação. Não é eficiência ou rapidez que faz com que a informação chegue. A medida certa está na
interação. Conseguir ver a consequência e manter-se calmo quando algo parece estar sendo incompreendido. Pouco à pouco cria-se uma dinâmica e chega um momento
que poucas palavras bastam.
Desde o começo é necessário uma economia nas palavras e conceitos. Sem que com isso se abra mão de uma linguagem rica e inspiradora.
Eu tirei expressões como “Ter que” e “acho que” do meu vocabulário. Procuro utilizar o “não” o quanto menos possível. E aproveitar o resultado para
tirar um novo começo.
Estou retomando minha vida em São Paulo…o curso tem sido muito bom.
Logo vou ir para Florianópolis trabalhar duas semanas numa produção local.

21/09/2008

Fim da Preparação/Novo Tempo


Vôo JJ3603 destino Guarulhos/São Paulo.

O avião decola e me despeço da bela cidade de São Salvador.
Ontem durante uma entrevista uma jornalista do Correio Braziliense me perguntou o que eu tinha aprendido nesse projeto.
Aqui aprendi ainda mais sobre o meu país, sobre os Homens, sobre a vida.
Aprendi a olhar e não justificar a realidade de milhões de brasileiros que vivem em condições precárias ou difícieis.
Reafirmou minha crença de que com um tratamento digno as pessoas se desenvolvem. Que a arte é um caminho de transformação.
Só posso agradecer ao povo Baiano pelo respeito e carinho com que me trataram.
Nós vencemos algumas barreiras. De certo modo eles aprenderam o que já sabiam. Ser eles mesmos e se libertar de modelos ensinados para conquistarem seu próprio modo de viver.
Hoje em dia a favela, quase todo mundo mora na favela em Salvador, tem mercado, tem pressão para participar do mercado, de consumir, de saciar sua carência com aparatos que tem serventia e melhoram a sua vida. Esse povo sabe viver com pouco e tá na hora de ser vista como vencedor pelos meios de comunicação. Sem romantismo é pouca estrutura, falta de esgoto e cheiro de merda que não agradam a ninguém.
A revolução se dará quando esse povo acordar e passará a exercer a cidadania que lhes é de direito.
Não resisto a tentação de fazer um discurso político.
É meu modo de ser feio.
Feiúra não fui eu que inventei e não tem nada haver com pobreza.
Está cara de cada um. Está nos olhos.
É o sal que aumenta a percepção do doce.
O ator é aquele que põe a mão na lama.
A Arte é o Mangue que termina de digerir o que a sociedade produz devolvendo-lhe na forma de alimento para o espírito.
Só que com tanto desperdício fica difícil transformar tudo.
Por que infelizmente não celebramos a capacidade que temos de viver apesar de…
Fazemos da nossa alegria um carnaval para vendedores de cerveja e de outras drogas ilícitas.
A Alegria do povo virou um assunto privado…um mercado a ser explorado.
Foi difícil reverter essa tendência ao fracasso que temos e que é histórico.
Foi difícil fazer crer que com sonhos se constroi um futuro, se planta as possibilidades de um sociedade mais bonita e próxima do que somos.
Eu sou artista…e a idéia deste blog é mostrar meu processo criativo.
Tudo isso que escrevo digo a esses meninos…é a alma do filme.
De que maneira iria eu motivar-los a mostrarem se tão frageís, tão miseraveís, tão carentes…muito mais que esses meninos são e gostariam de ser.
Como convencer a ser um Capitão da Areia e ser menino de rua.
Eu não gostaria nem nenhum deles.
Só pelo contraste, só com humilde para aceitar a sua forma de viver e não dizer “ai, se fosse diferente.” Por que não será…não cabe a mim mudar a vida deles. Que motivei eles.
Cabe a eles mesmos valorizarem a sua vida, receberem pelo sua entrega e aprenderem a decidir o que fazer com que recebem por esse processo.
Um deles já comprou a bicicleta com que tanto sonhava.
Outro gastou quinze reais em menos de duas horas. E descobriu que ele ainda não sabe o que vai fazer com o dinheiro.
Um outro levou o que aprendeu na oficina para seu grupo de teatro na comunidade.
São todas vitórias. São materializações de seus sonhos.
Sonhos que começamos a sonhar juntos.
Depois de amanhã eles começam a rodar…o que foi planejado começa a ser executado.
Preparei eles para além do filme. Se continuarem serão bons atores e poderão integrar facilmente o elenco de outras produções que virão a Bahia.
Estou certo que serão melhores cidadãos.
Hoje vi no olhar uma dignidade que não é orgulho, nem é marra…uma nobreza por que os Capitães da Areia são um tapa na cara de quem não acredita que “daquele povo miserável” não possa nascer Nobreza. De tanto ouvir que só poderiam servir par aserem escravos muitos acreditaram….outros se encheram de ódio e foram servir a violência do tráfico.
Hoje aquele que já catou papel é heroí.
Hoje aquele que já foi muito revoltado sabe domar a fera que tem em si é um ator de muito talento e sensibilidade.
Hoje aquele que perdeu seu amigo, seu irmão numa morte perdida na bala que lhe explode o peito e o crânio…
Dá seu grito de fé: Ê, Capitães !!!!

Eu encontrei um irmão de sangue, um negro rastafari com nome de faraó.
Um deus de ébano com mãos capazes de fazer cantar os tambores e despertar os orixás para vir à terra. Tenho o privilégio de ter me tornado baiano também. De ir ao umbigo da minha e lustrar a minha dignidade como cidadão compartilhando meu tesouro: meu conhecimento. A Bahia me deu mais mistérios…

Obrigado
Axé

Escrito por Christian Duurvoort às 20h24


13 pensamentos em “Capitães da Areia (2008)

  1. nada deixa de existe quando temos possibilidades de uzalo pra fazer existencia
    conhecer este educador foi poder olha pra me sem mascara, sem ter que dar desculpa do que fiz ou do que eu quero, de quem sou ou pra onde vou foi muito simplis, simplismente viver conpartilha sabedoria fazer o novo ser real sem desculpas ou drama só amar e dar ao outro o que realmente todos queremos ser amado obrigado por vc ser… tudo isso

  2. ola familia amado
    sou a mae do jordán mateus um dos participantes e vcs nao imaginam a minha anciedade para poder assistir o filme
    desejo a todos vcs muita paz ,amor e saude
    um forte abraco

    • Olá, eu também estou ansioso. não sou da família mas conheci bem seu filho. mande um abraço prá ele. chris

  3. Olá, Christian.
    Sou atriz, de SPaulo, e acabo de descobrir os “Capitães de Areia”. Ainda nem terminei de ler, mas estou totalmente encantada com a obra e com o relato de seu trabalho. E ainda mais curiosa para ver o resultado!
    Parabéns – não só pelo seu trabalho, mas pelo BRASILEIRO que vc me mostrou q é.
    Forte abraço.

  4. ” jean”que fez o papel de gato pedro bala ele é lindo,e realmente ele e a pessoa certa para fazer esse papel,eu tembém sou bahiana , de salvador e vi que o livro era a pura realidade.gostei muito!!!

  5. sou uma grande fã de Jorge Amado, gosto muito das suas literaturas, pois são nelas que ele espoe o verdadeiro mundo da miséria e da infância roubada, que é muito bem retratado e destacado na obra do jorge amado Capitães da Areia.
    Capitães da Areia, é o melhor livro que eu já li. Sendo com certeza o meu livro favorito. Li-o três vezes em um ano, já a tempo tenho vontade de seguir a carreira de artes cenicas, tendo como mais um sonho, ser a personagem do filme Capitães da Areia, a Dora. Eu vi o treiler de vocês o filme aparenta ser muito bom, estou ansiosa para assistir o trabalho de vocês. Parabéns escolheram uma ótimo livro para criar o filme.

  6. Bem eu iria partisipar do filme como figurante,mas não deu para ir pq meu visual estava muito atualizado.
    mas estou na espera é torcendo por vcs que seja um grande sucesso desde já,deicho minha obs!sou o fã numero 1 do filme…
    q Deus e todos Orixás da bahia abencõe.

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