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Vôo Tam A331
Como de costume vou começar esse texto de dentro da cabine do avião que me leva para minha próxima missão.
Destino Curitiba…na real um lugar fora do centro a uma hora e meia do aeroporto.
Vou para uma Colônia Penal Agrícola trabalhar com detentos que estão regime de semi liberdade e que irão participar da produção de 400 contra 1 contracenando com atores de maior experiência e notoriedade.
Duas palavras me vem em mente Alegria e Dignidade. A minha proposta é restaurar a dignidade e não vender o glamour da celebridade. Assim como fiz na Bahia vou dar o que sei e que o melhor. Não me causa nenhuma estranheza e  nem me chama atenção o fato de estar trabalhando com pessoas que tem uma história extraodinária por que é à partir delas que se pode fazer boas histórias. É por que as histórias nunca são comuns, banais elas são exepcionais para permanecerem muito tempo na nossa memória e nos auxliarmos na nossa caminhada pela vida.

A experiência da detenção, da perda da liberdade, da perda da individualidade é bastante forte.
Passamos a vida perdendo coisas, o tempo não volta nem pára.
Voltemos as palavras. Muito se diz do sorriso do brasileiro mas pouco se vê o que ela quer dizer. O sorriso é para ocultar a dor, o sorriso é para ser aceito, o sorriso é para ganhar algo seu. Nem todo sorriso é assim mas infelizmente somos especialistas em sorrir assim. Temos a cultura do agrado e aquilo que nos desagrada simplesmente ignoramos.

Penso no porque alguém se dá ao trabalho de ir a uma penitencíaria filmar com presos. Por que tanto trabalho. Será que faltam atores para compor o quadro? Será que é pela sensação que isso pode causar no público que vai ao cinema ciente de que aquelas pessoas são detentas, bandidos, criminosos que cumprem suas penas? Será que alguém está se fazendo essas mesmas questões?
Penso na gratuidade e facilidade com que lidamos com a violência nos meios de comunicação. Como nosso pensamento de esquerda é raso e fica sómente na denúncia dando espaço para que conservadores possam apontar o dedo na cara e dizer diante da bala perdida que bandido bom é bandido morto. Penso em como nós cineastas sentimos atraídos intelectualmente pelo tema mas pouco conseguimos contribuir para a evolução no modo de abordar o tema no cinema.

O avião começa a descer. O comandante anuncia que estamos nos aproximando do pouso no aeroporto de Curitiba. Estou apenas com uma mochila pequena e uma bolsa de esporte mas a minha bagagem dentro de mim pesa uma tonelada. Aterriso cheio de desconfiança e dúvidas.

Saio do aeroporto e quase perco a pessoa que veio me encontrar estou meio tonto na arquitetura no amplo saguão de um aeroporto moderno impessoal frio e sem caráter definido.
Primeiro dia na Colônia Penal. É uma viagem de 60 minutos até lá. Somos 3 a ir  ao encontro de um ainda não definido de presos que querem participar. Podem 20, precisamos de trinta, podem ser cem…duzentos ou ninguém. São tantas informações novas. Avalio que não foi muito planejada essa ação. Que teremos que lidar com os problemas na hora, tomar decisões que afetam a produção sem estarmos muito cientes do que isso pode acarretar para o sucesso da empreitada.
Estou tenso. Mais que o normal. Estou acostumado a lidar com novidades e tenho flexibilidade para me ajustar as situações e mesmo chegar aos objeitovs finais da minha missão. Reluto em admitir que as questões do dia anterior me atormentam. Prefiro reclamar do diretor, do produtor….mas isso é normal na criação. Fazer cinema é o dia, é viver o presente, é um processo artístico complexo e contínuo. Um filme pode ter várias versões, visões e influências ao longo de todas as etapas o que norteia é  a necessidade de dizer algo que vale a pena dizer, que está em harmonia com suas crenças, que reforça sua motivação e te alimente para ir até o fim.

Chegamos a portaria do presídio. Carteira de identidade e celular ficam retidos na entrada. Vão investigar se temos algo na nossa ficha criminal, o famoso atestado de antecedentes penais. Caso um de nós tenha uma marca na ficha não será permitido o acesso.

Bem vindo ao Sistema. É assim que todos chamam esse lugar. Um lugar esquecido…ou melhor que a sociedade faz questão de esquecer que isola indivíduos, retiram sua identidade para que ele possa se arrepender do que fez e se regenerar. Uma ação voluntariosa que acredita que o criminoso se regenera por que quer e sózinho. O que na prática não funciona. É muito ingênuo. É tão ingênuo quanto acreditar que construir escolas, contratar professores e colocar crianças lá dentro basta para ter educação. Que as pessoas não aprendem por que elas não querem. Que ações externas não influenciam na vontade delas, que elas não são manipuladas e refém de ideologias que destroem sua auto estima e sua crença em si.

Passamos a primeira barreira. Do lado de dentro um belo bosque. A paisagem bucólica de uma fazenda no interior do Paraná. Paraíso suspira a minha companheira de viagem. Me fecho ainda mais. O barulho na minha cabeça de tantas dúvidas, vozes do meu ser, me atormentam. O que eu estou fazendo aqui? Quem e o que vou encontrar?

A o Papai Noel eu havia pedido que continuasse me trazendo filmes e projetos de qualidade artística e retorno financeiro para me manter comperspectiva de crescimento. Sucesso é difícil de manter. Eu sei que tenho sucesso mas não posso me acomodar. Sonhos podem se materializar mas é preciso trabalhar para isso. Sonhar é bom dormindo. Acordado é agir, pensar, sentir. É importante fazer distinção entre o sonho e o ideal. Se os dois se misturam muito podemos perder a capacidade de sonhar e capacidade de agir. Se for bem ponderado conseguiremos aproveitar melhor os dois.

Desço do carro e ponho o pé em solo administrado pelo Poder Judiciário. Em solo contaminado pela nosso estado, pela nossa sociedade que ainda vive uma grave crise de convívio. No caminho percebo  olhares. Discretos e fortes. Olhares que me perscutam Que me filmam. Quem me julgam e classificam. Todos sabem quando algo novo chega. Ficam receiosos que sejam excluídos, explorados ou agredidos. Mas eu não sei o que quer dizer isso aqui. É um território desconhecido. Entro na sala de segurança. Observo que o que identifica ou melhor o que os difere dos outros homens ali é o colete. Nele vem escrito AGENTE PENITENCIARIO. Na frente um crachá. Minha mente logo dá um rótulo: REPRESSAO. Que logo vem seguido de um segundo pensamento: MINHA SEGURANCA. Procuro amenizar. Mas é assim a educação de um homem de classe média. Ficar em cima do muro. Nem isso nem aquilo. Uma visão morna e morta. Que procura estabilizar e estrangular o que vê para sentir-se confortável. Pois é conforto é o que não vou ter ali. Só espero ser acolhido e aceito.

Ouço o discurso institucional que me é dado pelo Chefe de Segurança e também sua opinião pessoal que vem de anos de experiência. Ali são 1400 homens que estão em regime de liberdade semi aberta. Ou seja eles já cumpriram boa parte da sua pena e começam a se reintegrar a sociedade. Estão prestes a receber o alvará do juiz para voltarem a serem homens livres. Ali eles estão sob a guarda do juíz. É ele que decide tudo. Nós os agentes penitencíarios temos a missão de fazer valer o que o Poder Judicíario designa para aqueles indivíduos. Eles recebem permissão para sair visitar suas famílias e voltar. Eles recebem permissão para estudar fora do presídio. Eles recebem permissão para trabalharem fora do presídio. Mas para eles receberem essa permissão eles precisam ser avaliados pelo Juíz, pelo Psicólogo, pelo Assistente Social. Eles precisam ter um prontuário onde não consta faltas médias ou graves. Eles precisam no parecer dos funcionários do Estado não representar uma ameaça para a sociedade. É isso. A justiça dos Homens.
Setenta por cento dos detentos são reincidentes. E a maioria volta depois dois ou três meses.
Só por esses números dá para perceber que há algo de gravemente errado na nossa justiça dos Homens. No nosso Estado. Na nossa Sociedade.

Minha cabeça ferve. Desde já tenho admiração por esses homens que com todas as dificuldades que já enfrentaram irão voltar  a sociedade. Sei que há irrecuperáveis mas quero acreditar que a maioria tem chance de evoluir, de conseguir fazer algo melhor da sua existëncia, de se recuperar…sobe uma placa dentro da minha cabeça onde diz:
Ingênuo,
Inocente,
Vós que entraste
Deixe suas esperanças do lado de fora.
Deixe seus idealismos,
suas Vitórias, suas Glórias,
suas medalhas de bom cidadão
e entre para o Reino do Sofrimento.
Da noite sem fim.
Da incerteza.
Abandone suas teorias sobre o Amor
sobre a Fraternidade
sobre a Fé.
E suje seus pés de lama, de sangue, de lágrimas
da  podridão da Humanidade.
Venha conhecer o mundo dos semi-vivos
semi-livres
dos semi homens.
Venha comer do prato da carência,
da morte.
Deixe para fora seu passado
sua identidade
seu orgulho.
Deshumanize-se.
Desmoralize-se
e se tiveres sorte voltarás a ser Homem.

Me aproximo da sala tentando dar ares de naturalidade e procurando controlar a minha confusão interna num movimento destinado ao fracasso. Respiro e me digo sou ator. Todos somos. Os Detentos, serei politicamente correto, entram na sala comigo. Eles não me olham e eu não olho para eles. Nos vemos, nos enxergamos mas não fazemos contato. Um estrangeiro. Lembrei de quantos livros e filmes que vi sobre o tema. Pensei no pavor de adolescente de ser preso numa cadeia e de ser estrupado, torturado, abusado, machucado de uma maneira definitiva. A ficção me levou tão próximo da realidade que vi que ela era uma imitação.

Peço para que se aproximam e organizam os uma roda com os bancos. Sentados aqueles homens não representavam nenhuma ameaça para mim portanto me acalmo. começo meu discurso institucional.
O filme se chama 400×1. Ele conta a história dos fundadores do Comando Vermelho nos anos 70 relatado por William. Um dos idealizadores e ideólogos do movimento. Eles começam chegando pela segunda vez no presídio de segurança máxima da Ilha
Grande, a pior e a mais lúgubre instituição de sistema penitenciário. Lá conviviam presos comuns com presos políticos. Lá eles seriam expostos a um tratamento desumanizante, vil, doente…lá inspirado por ideiais revolucionários decidem formar um grupo para melhoria na prisão e depois para conseguir sua libertação. A organização começa existir depois que o grupo inicial consegue pela força obter a união dos outros presos, rompendo com rivalidades e impondo uma código de disciplina. Foi a primeira tentativa de organização de presos comuns na cadeia e que depois se estendeu para fora dos muros…e que marcou história por que com suas ações coordenadas conseguiram libertar mais presos da Ilha e executar uma onda de assaltos a banco no Rio de Janeiro como nunca se tinha visto antes.
Enfim eles estão na base de muita coisa que existe.

A história bem contada e os ouvidos atentos me acalmam mais um pouco. Digo a eles que estou ali para propor para eles participarem das filmagens mas que para isso precisariam passar por um treinamento comigo.
Sou interrompido por um dos rapazes que me pergunta por que não fazemos um filme sobre algo atual, uma rebelião ocorrida  num presídio aqui no Paraná.
Outro me pergunta qual seria seu papel.  Se eles receberiam o roteiro…
Outro louva a proposta. Dizendo que a arte recuperou ele. Esse me conta que ficou seis meses no isolamento e lá dentro escreveu uma história que foi publicado.
Outros me olham com desconfiança…
Ouço reclamações sobre o sistema. Ouço que eles estão prestes a sair. Que é bom falar sobre o sofrimento deles.
Falo sobre o que é um ator e que eles seriam atores por que por menor que seja seu papel eles teriam uma importância no filme. Afinal o filme trata em grande parte da vida no presídio.

a ser continuado…

dsc06195Esta é a imagem do último dia. Hoje faz uma semana que terminei o trabalho. O que eu escrevi antes foi no calor dos primeiros dias.
Vencer a desconfiança foi uma primeira vitória…mas demorou até quase o último minuto.
Havia vários entraves burocráticos. Eles estão sob a guarda da Justiça. E precisam preencher vários requisitos para poder sair dali.
Foram várias etapas de aprendizagem. De um lado um monte de homens tristes, secos e endurecidos pelas condições em que vivem. Que é um paraíso dentro do sistema penitenciário brasileiro.
No meu segundo dia lá chegamos com um grupo de atores de Curitiba, do Rio e com Daniel de Oliveira (cito nominalmente ele por ser um homem público e pelo que provocou como reações). Desorganizados chegamos atrasados. Eles já estavam prontos. Estavam já começando uma aula de capoeira.
Eu queria romper com essa barreira do Nós e Eles. Queria conhecer os meus limites. De tanto trabalhar com vítimas da violência e me sentir vítima da mesma era difícil me sentir cômodo lá. A minha definição de ator me serviu para responder as questões que nasciam por que toda hora me perguntava por que escolhi sair do meu conforto para ir para o olho do furacão. Por que era difícil encarar aqueles homens e não pensar na violência que eles causaram e que agora eles sofrem. Difícil dizer quais ali realmente cometeram seus delitos por necessidade. Difícil trabalhar com a emoção que esta situação nos provocava. Uma panela de pressão esse lugar.
dsc06196Ainda hoje sonho com aqueles rostos. A descontração da foto é o reflexo dos sete dias de trabalho lá dentro. Foram muitas conversas, reflexões sobre a vida, sobre nossas semelhanças e diferenças, sobre o trato humano e o respeito.
Logo no primeiro dia de trabalho apliquei os exercícios que utilizo normalmente em aula e que sei provocam um certo estranhamento. Parece infantil ou tolo bocejar ou espreguiçar. Parece louca a proposta de auto conhecimento. De se deixar ver.
Eu não deixei de fazer nada mas estava constantemente atento as reações. Os grupos eram muito grandes, quase nenhuma presença feminina, e eu não estava com um assistente para poder dividir comigo a responsabilidade de observar e conhecer aquelas pessoas.
Aos atores profissionais eu disse que o que estava fazendo era fácil para eles mas que a proposta era eles poderem compreender a dor naqueles rostos e se abrirem para que ela ficasse impresso no seu rosto. Também provoquei dizendo que eles não gostariam de trocar de lugar com os detentos.

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