Uma Questão de Pele

Movimento, Estímulo, TatoAtuar é dar qualidade a uma mensagem.

É como transmitimos nossa mensagem, através de que meios, com quais recursos, com quanto esforço, com que intensidade que faz a diferença.

Tenho procurado diferenciar a técnica do ator da linguagem cênica. A técnica pode servir uma linguagem mas se ela se encerrar numa linguagem perdemos muitas possibilidades. A técnica tem a finalidade de aprimorar o que já existe. De expandir nossas habilidades dando-lhe a dimensão que desejamos. Durante anos venho pesquisando e desenvolvendo esse método para cada vez mais aproveitar cada vez mais do que faço. Isso me estimula e me dá prazer. A técnica deve se desenvolver em função de cada corpo e não vice versa. Como cada corpo é diferente a técnica se adapta. Isso um bom professor deveria saber.

Aqui quero compartilhar o que trabalhamos na última oficina que dei aqui em São Paulo.

Muito pouco se pensa nos sentidos para atuar.

A Visão e a Audição são os sentidos mais estimulados e mais desenvolvidos do nosso corpo em detrimento dos outros. Mas desde que nascemos o sentido mais importante de sobrevivência é o Tato. Aprendemos tudo pelo tato nos primeiros anos de vida. É o maior orgão sensorial que temos, ele cobre todo nosso corpo. É através dele que estabelecemos relações e interagimos com o espaço. Sabemos a temperatura, a textura, o peso, a direção, nos equilibramos, criamos imagens… enfim tudo pela pele. E se pensarmos que a pele também cobre os outros orgãos sensoriais, como o olho, o nariz, o ouvido, a boca, que todos os tecidos tem praticamente a mesma constituição e se comunicam podemos compreender a dimensão do Tato.

Nesse último curso que dei em São Paulo exercitamos nosso tato. E vimos o quanto isso nos deu mais confiança e animo para trabalhar. Que pudemos perceber melhor nosso volume, tamanho, força pela pele. Percebemos que as mãos são regiões muito utilizadas que por isso os estímulos recebidos nelas são mais fáceis de interpretar do que os estímulos recebidos pela pele das costas, dos braços, das pernas.

Mesmo assim é mais fácil desconstruir o tato do que desconstruir a visão. Já tinha percebido isso na preparação do Ensaio Sobre a Cegueira. Tanto que uma das habilidades que trabalhei ali foi a relação com o espaço e com o como imaginamos o espaço à partir de uma percepção feita pelo tato. Depois pelo olfato, audição… para reduzir a dominação da Visão sobre os outros sentidos. Apesar de que ver nunca é uma ação isolada dos outros sentidos. A soma de tudo que percebemos pelos sentidos é o contexto mas que muitas vezes tomamos como sendo a imagem.

Esse processo que fizemos na oficina e no filme foi um processo que nos fortaleceu como indivíduos nos ensinou sobre como administrar tensão no corpo pela auto observação. Reduzindo o desgaste e aproveitando o tempo para criar mais.

Um corpo com tônus justo está mais propenso a agir com consciência. Podemos fazer muitas coisas no susto, sem pensar… mas eu não sigo essa linha. Não acredito em acaso nem em gênios. Existe a diversidade. Existem escolhas.

Eu acredito que é importante criar e depois analisar. Criar não é dom divino. É resultado de um processo, de movimento.