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Experimentalista Graças aos Deuses!!!

Eu nasci auto didata…gosto de fuçar. Sou curioso por natureza.

Gosto de observar e desde pequeno viajei muito nos meus sentidos.

Olhava o céu e via o Universo. Me imaginava pequeno na minha cama, um pontinho, como um poro na superfície da minha pele.

Ao mesmo nunca suportei injustiça da minha parte e nem dos outros. Levemente tímido e sem talento para ser valentão me resignava e imaginava uma forma de dar a volta por cima.

Cresci assistindo pouca televisão mas assistindo a história turbulenta festiva e violenta dos anos 60 e 70 passarem pelas revistas cruzeiro, manchete, pasquim, veja, isto é, placar, jornal da tarde…. Quando eu já tinha pernas e mais mobilidade fora do ninho a ditadura estava se desfazendo mas ainda havia exilados e muitos mortos nos armários. Tudo que vestia farda era o lobo mal necessário…por que também protegia a classe média dos perigos e trazia o whisky paraguaio para as festas. E como eram boas as festas…que de penetra íamos. Mas como eu não me sentia pertencente aquele lugar eu não desfrutava. Ali aprendi o que é ser invisível sem saber mas aos olhos dos outros. Mas não cego.  Também aprendi a conhecer o gosto dos poderosos e ouvir seus discursos viciados de pessoas isoladas do convívio.

O meu defeito é ir fundo demais a ponto de não ir para frente. Parecia o metrô no começo dos anos setenta. Agora não.  As obras são tão rasas que derrubam casas  e coisa e tal.

Li muitas crónicas…Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade e por isso que virei cronista de mim. Viajei o mundo para conhecer Pasárgada…mas não era saudades.

Conheci São Paulo pela janela do ônibus. Conversei muito com motorista de ônibus. Morava na  Aclimação e podia em poucos minutos  estar na praça da República. Fiquei tão bom nisso que virei Office boy da minha mãe. Foi ótimo. Aprendi ir ao banco pagar conta, fazer depósito, pedir extrato…a maior aventura era trocar dólar.  Me sentia um agente secreto. Era ilegal. Mas não era crime… estranho….mas nos anos setenta era assim. Era numa agencia de viagem na Avenida São Luís. Tinha que ligar antes. Marcar hora. Falar em código. Dizer o nome de alguém. Não falar para que veio. Nem a recepcionista podia saber…E eu um garoto de 14 ou 15 anos entrava por várias portas. Entregava o cheque e fingindo calma esperava me darem o dinheiro. Imaginei muitas vezes que a policia me pegaria ali. Ou que os seguranças daquele me jogassem na rua e ficariam com meu cheque. Saindo de lá com valor razoável, hoje equivaleriam a quatro mil reais, num envelope e prá disfarçar ainda brincava com o mesmo para mostrar que não nada de valor. Mas quem via esse moleque? Ninguém.

Aprendi vendo e lendo. Vi não sei quantos filmes de arte no cine club do bexiga. Godard era o máximo…Bergman também. Ia para uma sessão à meia noite cochilava mas alguma coisa ficava.

Aprendi no colegial a dormir de olhos abertos e a aprender a matéria por osmose. Por definição eu não lia os livros que o professor mandava ler. Era preguiça e rebeldia.

Anos mais tarde conheci uma pessoa que me disse que ele queria abrir a Universidade dos Curiosos. Lá cada um podia escolher o queria estudar de acordo com sua curiosidade. Lá seria abolidos as cadeiras e as cátedras. As carreiras nem pensar. Cada um estudaria pelo seu prazer.

Quando estudei na USP…sim nem um semestre lá fiquei…teve uma greve e propus algo similar ao Diretor do curso que estava tentando nos explicar o motivo da greve para que junto pudéssemos lutar. O caso é naquela época o curso de artes cénicas não tinha um teatro mas salas  de aula adaptadas para servirem a esse fim. Disse a ele que se havia pela qual poderíamos lutar era por uma sala de aula e que a única maneira de aderir a greve sem nos prejudicar era abolir o currículo e invadirmos o auditório da reitoria utilizando a mesma para realizarmos criações que refletissem nossos anseios de transformação…enfim fui aplaudido por ele que logo mudou de assunto. Foi minha última tentativa. Senti o drama peguei a mochila e fui embora.

Com esse meu jeitão na Europa fui tachado de Quixostesco, ingénuo, naif. Quase um retardado mental. Lá já tem ministério de cooperação internacional que cuida dos pobres frascos e comprimidos. Não venha reinventar a roda que aqui já estamos de carro. Por outro lado é bom ouvir sobre a pobreza do seu pais por que nós já esquecemos o que miséria e assim podemos exercitar a compaixão comendo brioche.

Dignidade é uma palavra que mesmo sem ter muita consciência dela fazia parte de meu pacote básico. Não me tratem como inferior só por que sou diferente. Prefiro intolerantes de carteirinha a tolerantes rígido e cheio de pudores. A moda é um saco. Sou vaidoso mas sei manter a linha e o bom senso. Ser legalzinho é uma doença.

Os anos oitenta engoliram os rebeldes. Aquilo que o AI – 5 não consegui fazer o liberalismo neo coronelista consegui. Curral novo. Vamos todos cantar com a Xuxa. A melhor coisa daqueles anos foi a queda do muro de Berlim. Pelo umas das estruturas da casa podre caiu….esse mês caiu a outra. Lá houve e ainda há tentativas de reerguê-la mas é só podridão. Os anos oitenta mostraram a cara flexível e transformista da serpente. O brilho da agulha, a mancha de sangue, o dedo em riste apontando o culpado. O brilho do espelho, a especulação, os pacotes econômicos.

Fui duro não ser varrido do mapa. Amsterdam meu refúgio era uma grande ruína de uma glória já perdida em franca reconstrução. Antigos punks neo políticos de esquerda minorias raciais sexuais étnicas drogados de todo tipo cada um no seu individualismo praticando uma convivência que só a riqueza daquele pais permite.

Mímicos, cantores de rua, poetas de esquina, pagodeiros fantasiados de brasileiro, intelectuais, traficantes, estivadores, putas, estudantes, casadoiras e casadoiros, esnobes, simpatizantes…o exôdo, os exilados voluntários sem nenhuma perseguição politica sambam num carnaval a menos dez graus centigrados. Conseguir um espaço num pais que é metade do Sergipe e com a população do Rio de Janeiro é utopia. Mas enfim este é o espírito holandês. Resquícios da inquisição, da guerra, abrigar os mais necessitados e conseguir mão de obra mais barata para competir no mercado formam o espírito progressista de um pais que eu admiro.

Por ter dupla nacionalidade eu posso ir vir ficar o quanto quiser dentro do Condomínio da Comunidade Europeia. Assim que percebi que na Holanda eu iria me acabar numa luta por um espaço minúsculo e sem possibilidade de progressão. Fui para Paris carregando na mala as poucas glórias de ter aprendido holandês, tocar pandeiro e ter visto todo tipo de espetáculo experimental provocativo e restrito a uma plateia muito pequena.

A França com seu passado venturoso de teatro, sua primavera de 68 me atraia mais. Poder aos jovens, aos sonhos, à imaginação. Viva os artistas de Montmartre, de Montparnasse, do Quartier Latin. Viva os 300 diferentes filmes exibidos por dia nas salas de cinema de Paris… Viva Peter Brook, Arianne Mouchkine, La Cartoucherie, Les Bouffes du Nord, le Théâtre de la Ville, le Théâtre Odéon, Jacques Lecoq, et Cie. Viva os designers. A Nouvelle Vague. O Georges Pompidou.

Tudo muito acessível desde que você pudesse pagar. Quando cheguei lá havia terminado a festa. A fonte tinha se esgotado. E para viver das jóias da família imperial era preciso apertar os cintos. Alem de que em Paris tudo é exclusivo e você agradece sempre e por hábito pede perdão. O espaço é ainda muito disputado. Só os cupins e os insetos tem vida fácil.

Trabalhei de garçon numa restaurante mexicano e depois de três dias pedi demissão.  Não conseguia dormir por que as músicas, uns mariachis horríveis, ficavam ressoando na minha cabeça durante horas enquanto tinha pesadelo com pratos escaldantes e fregueses se divertindo com a minha cara. Isso acontecia no serviço também. Eu ia sendo engolido. Virava um farrapo. Uma máquina de obedecer. E cheguei a conclusão que era melhor ser duro que ser garçon.

A coisa apertou muito mas aí pintou uma chance de trabalhar no cinema. Oba! Era o que eu desejava ser: Porteiro de Cinema e vendedor de doce. IUHU!!!! Meu momento de glória tive quando entrei no intervalo dos trailers e da sessão do filme e o povo aplaudiu minha imitação de vendedor de sorvetes na praia de Santos. Vendi horrores mas o gerente rosca fina não gostou. Me despediu e essa minha única experiência com o cinema.

Já na Escola do Jacques Lecoq eu esperava ser o menos experiente e pior aluno da classe. Mas nada apesar das exigências de um curso prévio, cartas de apresentação, currículo e sei lá mais o que…descobri que aquela turma da manhã era um vai-quem-quer. O nível era baixo. O método muito inteligente mas aplicado por professores embrutecidos por tantos anos exposto a luz soberba do grande mestre. Enquanto ele pedia generosidade aos alunos atores dava as costas e nenhum sinal de compaixão com os mesmos que ele havia admitido na sua escola. Sem saber mas percebendo algo de estranho fui considerado como gênio por aquele homem e dado como exemplo. Isso durou 4 ou 5 meses. Até que sem querer ultrapassei o mestre. O Homem se sentiu afrontado. Passou a me tratar mal. Quem sabe eu também percebendo a sua fraqueza comecei a deixar o ego inflar. Até que um dia a bolha estourou desafiei o Homem que me jogou para longe com manejo de seu florim. Fui expelido da escola ao final do ano escolar.

A crise durou pouco tempo. Eu só não queria ficar parado. Foi a última tentativa de obter um diploma e decidi que escola só amarrado. Vi a Tempestade dirigido por Peter Brook e decidi que queria algo assim. Um lugar para trabalhar e transformar ideias em obras. Conheci Monika Pagneux, uma senhora inacreditável, essa sim uma verdadeira mestre, que de tanta humildade dizia não ver a utilidade em escrever um livro se tudo já estava escrito e que só bastava as pessoas desembotarem os sentidos. Ler mais um livro não ia fazer elas mais inteligentes. Movimento sim. Ela é a representante de uma linhagem de pesquisa em dança e teatro que se fez no antes e pós guerra na Alemanha. Ela foi aluna e integrou a Companhia de Mary Wigman. Estudou com Etienne Decroux, com o Lecoq, fez parte de um circo, se acidentou, quando se recuperou foi se tornar discípula de Moshe Feldenkrais. Se tornou pesquisadora de movimento, de preparação corporal do ator, lecionou por vinte anos na Escola do Lecoq e foi por dez anos colaboradora  do Peter Brook. Respeitadíssima entre os atores na Europa depois de um curso me convidou para ser seu assistente. Aprendi que devagar também se chega logo. Que o tempo do corpo é o tempo da vida e do aprendizado. Que criar dificuldades imensos para transpor torna as pessoas dependentes, infelizes e servis mas não plenas, leves com vida. Os seus exercícios físicos são filosofia em movimento. Acessíveis a todos os mortais. Tenho aplicado e aprofundado seus conceitos no meu método como ela me pediu. Assim como um verdadeiro mestre ela quis que eu não ficasse repetindo ou imitando o seu jeito mas que encontrasse o meu e completasse o trabalho que ela iniciou.

Fiquei mais alguns perdidos na França antes reunir forças para voltar ao Brasil.

Mas isso é outro capitulo.

8 pensamentos em “A Gênese do Ator Imaginário

  1. Interessante, quase uma terapia porque re-examina aquilo que foi sentido mas nao analisado e conscientemente incorporado.
    Escreva sempre, e mais e mais.

  2. Gostei de conhecer a trajetória Chris. Esse amálgama entre a batalha pela vida e a busca pelo conhecimento e a expressão. Você ten um jeito indireto de contar as coisas no qual vamos intuindo a sua experiência, pois ela vai se infiltrando sem se explicitar. Certamente porque você é avesso às sistematizações. Por te conhecer, confirmo que você é assim mesmo na convivência.

    Um abraço,
    Roberto

  3. Adorei ler, cada trecho parece vivo, quase escuto sua voz contando os cantos e os desencantos. estou anciosa pelo próximo capítulo.

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