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Eis aqui o primeiros textos que escrevi nesse blog mas que estava hospedado em outro provedor. Com a mudança copiei os textos e trouxe para cá.

31/08/2006

No começo de tudo.

O Ator Imaginário sou eu. Eu me inventei ator pela vida e pela experimentação. Não parei em escola nenhuma. Não quis seguir um outro caminho que não fosse aquele que intuia.

Eu comecei dizendo não para tudo e perdi um tempo para chegar a algumas conclusões simples e práticas.

Que não são limitadores nem absolutos.

E isso eu compilei e gostaria de passar aos meus alunos. Um método para experimentar. Um método para inventar seu próprio método.

A proposta é muito simples. Espontaneidade e estrutura. Agir e deixar agir.

Tudo passa pelo corpo: estimulo, consciência, ação.

No começo não era assim. Meu corpo era bem travado e desengonçado. A cabeça pendia com o peso de tantos pensamentos. E o coração explodia de tanta paixão,carência e tesão. Eu era do tipo prá dentro.

Sabia que eu gostaria de dirigir mas sabia que tinha que passar pelo que eu pediria aos meus atores para poder fazê-lo.

Enfim, eu queria um montão de coisas. Passados 26 anos de teimosia, curiosidade e fazendo muito encontrei algumas coisas que me dão prazer. E são preciosas.

O importante é não perder o senso de humor.

Vou desenvolver essas idéias com tempo e conforme me forem aparecendo os temas.

Ontem me lembrei de um espetáculo que assisti em Paris e que me tocou muito.

Eu morava em Paris. Morei quase sete anos. Por curiosidade gerada por uma matéria no liberátion fui ver um ator Nô de 88 anos fazer Cyrano de Bergerac em japonês. Um detalhe importante é que ele fazia esse espetáculo há sessenta anos e dizia ser esse personagem o maior personagem da dramaturgia ocidental.

Um outro detalhe era que ele e o iluminador de 92 anos eram os únicos remanescentes da companhia e que só eles estariam em Paris. Enfim um solo japonês de um clássico francês. Não sabia o que esperar.

Éramos meia dúzia de gatos pingados no théâtre de la Maison des Cultures du Monde…

E esse senhor idoso, frágil, com essa voz super trabalhada, a recitar com os fantasmas. Ele contracenava com todos os seus companheiros mortos. Um espetáculo pirandelliano e fantástico. Ele não fazia de conta que estavam lá. Ele realmente via os outros personagens e se entregava a suas paixões com toda intensidade.

Imediatamente me lembrei de uma passagem de um livro do Boal em que ele conta como o Eugênio Kusnet ia pro teatro horas antes ensaiar só uma cena em que ele contracenava com outros atores. Ele achava isso estranho mas muito disciplinado. O Kusnet não pensava em personagem mas devia pensar em ar, imaginar, respirar e música. Sei lá… queria ter perguntado para ele. No seu livro ele descreve isso como sendo sua partitura e ponto.

Nesse aspecto o teatro ocidental e o oriental se encontram.

Voltando ao Cyrano.. ele me abriu a cabeça. Antes de mais nada é preciso ser muito humilde para se deixar ver desse jeito. O teatro, que é a arte do ator, é um exercício duro de não saber nada. Só imaginar.

A ser continuado…

Escrito por dchristian às 15h28

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30/08/2006

71 metros quadrados

eu nao moro em 71m quadrados. é mais um aluguel. é mais um risco. devemos ser loucos ou corajosos. enfim os dois. nunca administrei um espaço. aceito sugestões. esqueci de fotografar o lugar.

Começar a divulgação, comecar a ação. Faz muito tempo que não dou um curso em sao paulo…. o último foi em 2004 no àgora. foi ótimo. pena que não teve continuidade. esse ano já dei cursos em caracas (venezuela) e em cuba (na escuela internacional de cine y television). Mas em sp… nada.

Ok, a imagem já diz tudo.

Temos muito espaço e muuitas propostas. Aula para atores e para iniciantes. Aulas específicas em linguagem cinematográfica (atores) e direção de atores. Ainda Temos uma aula de danca de salão com consciência corporalque difere muito das aulas convencionais de dança de salão. Estamos em fase de comecar a preparar uma peça de teatro sobre a velhice e o amor que tem o título provisório de Brechó.

Um dos primeiros trabalhos que faço com os atores é aprender a lidar com a ansiedade, com o desejo de fazer certo que impede o movimento criativo e fica no lugar comum. Pois é devo aplicar isso a administração do espaço.

Espero todos vcs lá.

Divulguem esse blog.

Escrito por dchristian às 11h41

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Primeiro dia

Primeiro dia. Espero poder cumprir minha promessa e manter uma espécie de díario. claro,que só posso fazer como terapia ocupacional até pegar o hábito.

Estamos Sueli, Davi e eu concretizando o que para mim sempre foi um desejo que reprimia: ter um espaço de trabalho – A Academia da Imaginação. É isso ter 4 paredes para criar, pesquisar, rolar no chão e dar aulas. Eu sempre dei aulas em outras escolas mas nunca fiquei muito satisfeito por que embora pudesse fazer meu trabalho eu nunca pude aprofundar a questão da pedagogia e do método.

Para o ator essa palavra tem um grande peso. Existem muitos métodos e o mais famoso é o do mestre Stanislavski. Aqui temos o Boal com seu teatro do oprimido que eu admiro muito. Àlias foi por causa dessa questão de identidade que comecei a pensar no que seria um método de ensino para atores no Brasil. Algo que se adaptasse tanto a cultura quanto ao corpo do brasileiro. Depois de 27 anos me fazendo essa pergunta tenho algumas respostas e muitas indagações. Fiz uma trajetória bastante curiosa e pouco ortodoxa. Que estarei relatando em outro momento.

Esse blog é uma continuação da trajetória daqui prá frente. As memórias virão quando eu conseguir organizar-las. Esse exercício é novo e interessante. Gostaria de convidar o visitante a interferir.

Ainda estou engantinhando na internet e nunca publiquei algo. Perdoem os erros. Aceito sugestões.

Quanto a Academia da Imaginação ela fica na Rua Rego Freitas,454- conj 71. Em cima do teatro NExT, próximo à praça Roosevelt e perto da praça da República. No borburinho. Come_çaremos nossas atividades no dia 4 de setembro.

Escrito por dchristian às 11h26

04/09/2006

Improviso #1

De repente o celular toca e me dizem que o espaço tá quase pronto, que tá lindo, que falta pouco… enfim tentam amenizar minha decepção e diminuir minha reação. Eu já imaginava que não iriam cumprir o prazo que eles mesmos estabeleceram. Fiquei levemente irritado, não pude evitar, mas aceitei por que não estava saindo no prejuízo.

Prazo é algo que se não for prá ser respeitado é melhor não ter. Mas não dá prá ser tão inflexível.

Engraçado que tudo são dados que temos que lidar no trabalho de criação e que muitas vezes se tornam uma fonte de tormentas. É preciso planejar mas só para poder se perder com passagem de volta. Nem quero falar de segurança por que ela não existe em lugar nenhum.

Semana passada pude ver o belo espetáculo Siwi Banzi est Mort dirigido por Peter Brook com dois excelentes atores negros.

Teatro político. Teatro poético. Simples. Que faz o tempo voar.

Conversei com os atores e foi muito interessante.

O Centre de Rechercehes Théâtrales dirigido por Peter Brook é uma referência para mim e para meu trabalho. Me dá muito prazer ver o que eles fazem lá. Tem muita imaginação e o trabalho do ator é fundamental. A mão da direção é sutil.

Um dos problemas dos atores são os diretores. É dificil a relação. Direção em teatro é um trabalho paciente de conviver com o provisório permanente.

Além de que o convívio humano sempre é um processo de lidar com poder, desejo, conflitos, diferenças, relações…enfim é uma reprodução da sociedade. Grande parte do tempo se usa para que as pessoas aprendam a conviver umas com as outras e que juntas conquistem algo que finalmente se tornará naquilo que vai se apresentar. Isto para mim é grande parte do trabalho do diretor. Se uns usam mais o bar que a sala de ensaio é problema seu.

Mas claro posso estar enganado na minha concepção de direção. Como qualquer criador conto com a inspiração. Com o instante em que uma compreensão nova chega e transforma o meu modo de ver me trazendo mais próximo a algo que gostaria de formular. Só que não estou sózinho e a minha volta tem outras pessoas vivenciando processos muito pessoais de criação. E todo esse movimento precisa ser coordenado e estruturado no tempo e no espaço. Além de que a estrutrura, mesmo que provisório, é uma ferramenta para instigar o ator a propor, a se rebelar, a ousar… basta que ele chegue nos limites dela que dará vontade de ir mais longe. Mas isso é um outro assunto mais complexoe filosófico.

Escrito por dchristian às 23h25

12/09/2006

Arte para curar

Não faz muito tempo que consegui entender o que eu queria com a arte. Por que eu insistia em algo que só poderia servir para produzir mais coisas para serem consumidas e admiradas e esquecidas. Não faz muito tempo entendi por que insisti em entender mais sobre o ator do que procurar um texto ou uma linguagem cênica. Entendi que me canso de ver e fazer coisas e me fecho em mim mesmo. Entendi por que por muito tempo me coloquei numa posição de observador de estudioso dos processos.

Não faz muito entendi que façø arte para curar. Primeiro ela é a minha cura para entender o que faço nesse planeta. Cura que causa uma transformação em mim capaz de me tirar da passividade ao qual fui educado para ficar. Daí ela se estende para o meio que imediatamente me cerca. Não quero enlouquecer procurando a cura como aconteceu com Artaud (se bem que para mim essa loucura dele é algo discutível prefiro definir como uma crise de linguagem na qual ele foi vítima dele mesmo).

Também a cura que encontro não é uma cura generalizada e única para todos. Cada um com seu corpo e espírito para cuidar. Cada tem de ser seu jardineiro com suas flores e ervas daninhas.

A Arte é inútil diria Oscar Wilde e fazer arte é ainda mais quando ela quer servir. Ao mesmo tempo solto no ar ela padece de destinatário. Temos meios de comunicação poderosos e ainda não sabemos com quem falamos. Nos redimimos ao colocar tudo no mesmo saco da indiferença a nossa passividade.

Eu vivia na Europa e podia escolher o que gostaria de assistir. Além de que o conforto de uma sociedade organizada e com projetos coletivos bem definidos era bem sedutor. No entanto eu quis voltar. Bateu Banzo no meu coração… mas não foi assim. A saudade já havia sido exterminada há muito tempo e viver na Europa poderia ser uma solução econômica para mim, já que eu não tenho nenhuma fazenda, banco ou indústria para receber de herança. Pelo contrário pertenço a desapontada, mediocre e cega classe média ( até a pouco a verdadeira massa manipulada). Só que na Europa eu carecia de interesse em querer comunicar com aquele povo enquanto de algum modo idealista acreditava que aqui, nesse país desorganizado e sem projeto, poderia encontrar motivação e raz_ões para continuar meu trabalho. Só que eu não conseguia formular o que eu queria com minha arte.

Ao voltar para cá fui sem saber fazendo meu projeto.

Os conflitos que brotam dessa terra são muitos e é preciso cuidado para não chegar a conclusão de que nada vai dar certo, de que é invíavel qualquer projeto nesse lugar. O que é preciso projetos que elevem e valorizam o que acontece. E creio que isso está acontecendo apesar deste decepcionante quadro político. A arte é política mas está acima do partidário apesar de que é claro que preferências podem ser expressados.

O que eu proponho para minha arte não é uma busca estética apesar da estética me interessar. Ela está ligada ao como faço para chegar a materializar uma idéia, uma proposta, um roteiro ou texto.

Parece óbvio mas não é. Pessoalmente eu vejo muitas coisas por aí e não sei por que elas existem. Claro, que o meu entendimento não é o único que vale, e tudo que é feito deve ter seu espaço. Só que a muito tempo que tá tudo saturado do pronto prá consumir. Há muito cinismo e ironia no ar jogando a idéia de que já que não sirvimos para nada então prá que lutar. Logo o vento muda e vai ser o contrário:” Eu sou tudo, meus direitos são soberanos e o centro do mundo é a minha vontade. Quem não fizer parte disso que se dane.”

Mas nem é para tanto. Chega de botar medo. Existem altrnativas pessoais e coletivas para isso. Eu acredito no que faço e faço forca para que não se torne uma doutrina ou um produto de marketing mas que contagiei as pessoas que se interessarem pela proposta.

É por isso que estou escrevendo esse blog. E se quiserem experimentar mais venha conhecer a Academia da Imaginação. Ela fica na Rua Rêgo Freitas, 454 conj 71 em São Paulo. O telefone é 011 3120 5831. Lá tem cursos para curiosos, atores, diretores e pessoas que desejam treinar sua imaginação.

Escrito por dchristian às 00h31

22/09/2006

novamente

Essa é a 3ª tentativa. Perdi dois outros textos sem entender pq. Pela lógica esse que eu não estou me preocupando em escrever deve ficar. Vou tentar…. tentei mas vou manter esse primeiro parágrafo só para continuar tendo sorte.

Cometi um outro erro de digitação e mandei o endereço errado deste blog para muita gente. Peço desculpas para quem está lendo agora e achou esse blog depois de muito esforço.

Ainda estou aprendendo a mexer com essas coisas tão simples e ainda me atrapalho.

Tem outras coisas que me atrapalham também. Uma delas é esse nariz entupido que acaba com a minha dicção que não é dos melhores.

Na outra semana eu escrevi sobre o que me motiva fazer arte.

É algo que me inqueita já que muito já foi produzido e nem tudo foi assimilado. Fico sempre me perguntando qual a necessidade de tudo isso.

O que motiva alguém a se dispor a perder anos de sua vida para fazer uma obra de arte.

Recordo a entrevista de um escultor Alberto Giacometti, que dizia não entender o por quê de quererem fazer uma mostra individual do seu trabalho se ele mesmo se considerava um artista fracassado. Já que tudo que almejava na vida era esculpir um busto e tudo que fizera foram tentativas mal formadas. Ele tentou se enganar e enganar os outros fazendo pés e mãos. Fazendo cabeças minúsculas ou deformadas mas nada satisfazia seu desejo de fazer um busto.

Tudo que fizera fora um grande ensaio, um exercício. O resto é a nossa imaginação.

Não foi pensando nisso que eu cheguei ao nome de Academia da Imaginação mas certamente agora percebo que tem muito haver.

Para o ator e para quem trabalha com o ator não precisa de muito para criar. Precisa de desprendimento e de algo que queira dizer.

Também precisa perceber que o que cria se desprende dele e toca o outro formando uma rede. E que isso demanda muito dele.

A idéia da Academia é ser um lugar para se exercitar sem preocupação de produzir mas com intuito de se fortalecer para suportar o instante da criação.

Merce Cunningham,coreógrafo americano, dizia que ele trabalhava seus bailarinos muito além das necessidades da coreografia para que eles estivessem prontos para o choque da liberdade que o instante da realização propicia. Em outro momento ele diz que a grande dificuldade é trabalhar a concetração do que está executando no agora pois a maior parte dos bailarinos pensam no movimento que vem depois e se desgastam.

É nesse sentido que pretendo trabalhar as minhas aulas e o projeto do espaço é tirar um pouco da ansiedade da produção do artista e desenvolver um modo mais prazeiroso de fazer sua arte.

O Drama é o movimento do universo. Vivemos constantemente entre o caos e a harmonia

Volto logo a esse assunto

Escrito por dchristian às 14h02

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21/09/2006

Apanhando na rede

Essa é a 3ª tentativa. Perdi dois outros textos sem entender pq. Pela lógica esse que eu não estou me preocupando em escrever deve ficar. vou tentar

Apanhei novamente mas o texto salvei em outro arquivo.

Escrito por dchristian às 16h17

28/09/2006

Inauguração

Espero que a Academia da Imaginação seja mais visitado que este blog.

Ainda não sabemos como será a ‘cara’ do espaço. O espaço físico está bem aconchegante e estamos fazendo de tudo para torná-lo um lugar agradável para se estar. Se fosse um restaurante seria um de ‘slow food’. Sem pressa e saboreiando o que está fazendo. O contrário das outras academias em que o intuito é produzir logo algum resultado. Mas não queremos ser moralistas. Acho que é o jeitão dos sócios.

Escrito por dchristian às 15h49

18/10/2006

Cuba

Tive em Cuba dando aula na Escuela Internacional de Cine y Television de San Antonio de los Banos. Foi uma estada intensa e curta. Fiquei mais na escola do que viajando pelo país. O curso que dei foi ótimo. Eu não tinha idéia do que me esperava. A escola é intensa e os cursos intensivos. Os alunos vivem uma vida quase monacal devotado ao cinema. Senti que eles estavam felizes por isso e algo se processava dentro deles. A relação com Cuba e seu sistema não pude avaliar em profundidade já eu não me encontrava em posição de me aproximar por estar completamente desinserido do cotidiano.

Uma coisa é certa o embargo é injusto, covarde e injustificável. Não sei se Cuba seria um Haiti sem o seu sistema político. Sei que o que há de maravilhoso ali é o acesso universal a educação. Que o governo crie condições para que todos possam ter uma formação ou não. Mas que possam escolher. Que o governo e o regime apesar de suas limitações valorize seus cidadões.

Uma reclamação constante por parte dos Cubanos é de que eles não tinham liberdade de ir e vir. Que eles não poderiam se instalar em outro país sem que isso pudesse de alguma maneira prejudicar a sua vida em Cuba. Que qualquer viagem para fora do país tivesse que ter uma justificativa para o regime. E que isso não poderia ser debatido.

Eu acredito que isso é uma faceta negativa grande do regime. E que o bloqueio seja uma boa desculpa para que se possar qualquer debate nesse sentido. O regime tem por que se sentir ameaçado. Por outro lado a educação tem sido o antídoto. Qualquer julgamento que se possa fazer quanto ao papel do regime de Fidel na história de Cuba, essa contribuição nunca poderá ser negada nem desmerecida.

J_á aqui…

Escrito por dchristian às 10h05

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Palestra/aula

No dia 16/10 vou dar uma palestra/aula na Academia da Imaginação. Vou começar os cursos de direção de atores falando sobre como vejo o trabalho do ator e a direção de atores no cinema.

Os dois assuntos se sobrepõe já que pensar em como é o trabalho no ator é pensar em direção, é determinar uma estratégia para se chegar a uma qualidade de atuação. Porém é necessário um conhecimento mais aprofundado dos processos de criação do ator para se chegar a um resultado surpreendente. O que implica em rever a estratégia e os conceitos.

A príncipio entende-se por ator como aquele que age e que sofre a ação de uma dramaturgia. Entende-se por dramaturgia o conjunto de elementos que formam o drama, o conflito. Este por sua vez tem uma dimensão maior do que apenas o embate mas podemos definir como um conjunto de movimentos que vem do caos para a harmonia ou vice e versa. Por assim pode se entender que o trabalho do ator é se colocar no meio do conflito, participar e se deixar levar por ele. O ator está no meio do drama, no meio caminho entre o caos e a harmonia.

Existem várias maneiras de materializar o Drama. Em várias culturas ela se dá através da dança. Ali não é mais o ser humano que é representado mas os movimentos dos Deuses, da Natureza. Ali o intérprete está à serviço da obra e não à serviço da sua expressão individual.

Na nossa cultura contemporânea co-existem diversas maneiras de se entender a função da criação artística. É díficil entender quem está à serviço de quem e por quê.

Eu entendo o ator como um criador mais do que um intérprete. Intepretar é uma das ações que ele faz antes de se lançar a uma ação. O que vem a seguir é uma descoberta e uma conquista em que os sentidos e a própria percepção de si são guias. A memória no trabalho do ator é só uma referência para poder chegar a uma compreensão do que se está fazendo. Eu pessoalmente acredito que a ação é mais reveladora e consciêntizador.

O Ator é um sujeito que deveria dentro do seu trabalho conhecer mais a si mesmo para aos poucos ter desapego de si e poder compreender o mundo ao redor que lhe cerca. Entretanto um dos desafios da sociedade contemporânea é a identidade. Se não sabemos quem somos em coletivo é por que não sabemos quem somos individualmente.

Houve um tempo em que na nossa cultura a identidade não era uma questão tão importante. Ela determinada por conceitos bem definidos que o processo histórico e cultural deste últimos cento e tantos anos tratou de questionar à fundo.

É natural que a pessoa ator possa também ter dúvidas e passar mais tempo tentando entender o que está fazendo aqui do que ter desapego por conhecer as causas do mundo.

Mas mais importante ainda é ele ter consciência de que suas ações estão inseridas num processo histórico maior e influem nele. A reverberação destas ações é que produzem transformações no meio. Eu acredito em transformação através da arte.

No meu trabalho o mais difícil é o díalogo por que não sabemos por que e para que dialogar. Eu acho que por processos históricos e culturais perdemos a capacidade de dialogar. O que existe é muito auto-afirmação e um processo desumanizante de se prestar a ser grande, diferente e inovador mas que resulta ser alienado. É uma alienação de si. Um desconhecimento ou negação de razão de existir para simplesmente atender ao que senso comum determina ser correto, bom e aceitável. O que elimina o indíviduo e qualquer possibilidade de ele se relacionar com seu meio. Esvaziando qualquer tentativa que tire de uma relação mecânica com o mundo e gerando insatisfação.

Isto é uma crítica pessoal. Essa alienação que falo é diferente daquele que falavam os políticos de esquerda (existe ainda?!) até alguns anos atrás e que prega que a arte tem de estar engajado numa causa social.

Na minha palestra não chego a falar disto por que não me compete mas levo isto em consideração quando estou trabalhando e não importa com quem. No trabalho do ator em geral lido com pessoas que tem mais ou menos capacidade de dialogar. Isso não tem haver com desinibição ou virtude. A dificuldade do díalogo é a base do drama moderno. Basta ler Edward Albee, Pinter, Beckett, Tenessee Williams, Arthur Miller…cada um a seu modo escreveu sobre o mal estar do ser humano em ser humano. Ao mesmo tempo em que tenta dialogar com o outro e perceber que o outro não lhe escuta por que não é capaz de escutar.

O ator é antes de mais nada uma pessoa. Se é um indíviduo é um outro problema. Não cabe a mim dizê-lo. Mas cabe aos personagens dizerem e mostrarem uns aos outros o seu grau de consciência e percepção que fazem de sua existência. O ator se presta a viver durante algum tempo o que é proposto pelo autor e deixar que isso interfira no seu modo de agir, pensar e interagir com o meio. Aqui deixei sentir de lado por que ninguém é capaz de prever como cada um vai sentir. Existem coisas, canções principalmente, que tocam quase todos os seres humanos e que devem parte de um imaginário coletivo. Entretanto o que se observa que a emoção que cada um sente é único. Isso se compreende se definirmos emoção como movimento, aí as fronteiras e as definições se diluem fazendo com ela seja constatada na sua transitoriedade.

Tudo que escrevi à respeito do ator vale para o diretor. Apenas que o diretor é aquele que motiva, inspira, encoraja e dá suporte para o ator. A sua ética consiste em fazer coisas que ele também possa fazer ou já tenha feito. Mesmo que o resultado seja inferior que a produzida pelo seu ator. Ele não é modelo do que se quer produzir e nem modelador. Ele é mediador de uma série de informações, objetivos, situações e referências. De certo ele tem que ser capaz de compreender o que se passa e fazer com que o processo siga. É um trabalho solitário mas não isolado nem dependente do meio. Um núcleo de pessoas que se dispõem a fazer uma ação conjunta reestabelece tudo que se passa no mundo num dimensão reduzida. É um processo conflituoso e revelador mas é apenas um ensaio daquilo que se passa no grande. Para mim o diretor deve promover o díalogo na diversidade e não reduzir tudo a sua visão do mundo. Esse é um perigo que ele corre e que deve resolver.

Muito do que está escrito aqui poderia estar num livro ou curso para executivos em empresas com outras finalidades que a atividade artística. Mas na base é igual. Tudo consiste em organizar e desorganizar. O que distingue a atividade do diretor de atores é que ele lida com elementos muitos pessoais de cada um que está envolvido no processo e ele mesmo está sendo posto à prova a cada instante por que o que produz é provisório como a vida.

O que o artista lida é com a fragilidade e a finitude da vida. Ao mesmo tempo que ele celebra a vida em cada coisa que faz. Ou pelo menos deveria fazer. A sua arte é despertar, provocar, alertar a sociedade do que é a vida. E como a vida por mais objetiva que seja viver é uma abstração, uma percepção em constante transformação, o que ele faz é doar os frutos de seus esforços ao mundo.

Escrito por dchristian às 09h47

11/11/2006

Um antropólogo de Marte

Eu gosto de brincar dizendo que os diretores são extra terrestres e por isso que não se comunicam bem ou tem reações estranhas. Mas isso se deve a função que acumula uma enorme quantidade de informações que devem ser processadas separadamente e simultâneamente. Além de que todos gostam de ter seu quinhão de atenção.

Outro dia vendo televisão eu vi a entrevista de um diretor de cinema que dizia ter sido antropólogo antes de ser diretor e que isso o ajudava muito determinando como ele ia abordar um roteiro. O interessante que esse diretor faz parte do cinemão hollywoodiano.

Vi essa entrevista no mesmo dia que eu também me sentia como um espécie de antropólogo de marte estudando seres humanos e descobrindo um mundo novo. Foi assim com Cidade dos Homens, foi assim com El Baño del Papa, foi assim em Caracas, em Cuba e agora em Maracaibo.

Eso me gusta!

Coincidência Elena Soarez, a roteirista de Os Filhos do Carnaval é antropólogo de formação e em seus roteiros ela procura descrever com sinais objetos e ações seus personagens nos dando indicações para desvendar quem são essas pessoas.

Aqui em Maracaibo ao entender isso pude chamar atenção aos alunos que eles teriam que observar o mundo em volta e se relacionar com ele para encontrar motivação para criarem. Ao mesmo tempo para reciclar seus conhecimentos e pode ter mais liberdade para criarem um mundo seu que nos dá a impressão de ser um mundo real.

Que eles deveriam se voltar mais para suas origens para entender o mundo de fora e ter curiosidade para investigar o que não conhecem. Que deixassem de lado as sensações e pensarem no que querem dizer. Tentando passar uma mensagem ao invés de se fixarem em um retrato.

Por mais que tenhamos uma produção gigantesca de histórias nesses últimos anos precisamos de mais por que precisamos refletir sobre a nossa existência e como queremos existir.

Eu acredito em transformação através da arte.

Escrito por dchristian às 20h25

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continuando

Passado a primeira semana em Maracaibo tenho uma folga e posso aproveitar para pensar. Depois não sei quantas entrevistas e horas de aula gostaria de poder lembrar de tudo que disse. Ainda não cheguei a um formato fixo e fico feliz por me supreender com o rumo que o curso toma.

Esse curso foi diferente dos anteriores. O grupo era formadao por gente muito atenciosa, concentrada mas com pouca experiência com o trabalho do ator. Somado ao fato da cidade não ser cosmopolita e estar menos exposta ao mundo exterior conservando uma certa pureza. Se fosse do outro lado da fronteira com a Colombia poderia imaginar-la como sendo a Macondo de Gabriel Garcia Marquez. O calor é enorme mas mesmo assim por causa do ar condicionado estamos todos agasalhados.

A cidade é agradável e grande mas ainda preserva uma humanidade.

O olhar está contaminado por tantas imagens não processadas, por tantos preconceitos e por que está cansada de ver. Muitos diretores resistem a ver o fruto de suas ações e tentam situar o problema em algum lugar fora de si. Já que ao dirigir alguém estão pensando que estão se livrando do problema por que alguém vai executar o que ele planejou. Isso é um erro básico e que precisa ser exercitado. Dirigir é fazer convergir os esforços de um grupo de indivíduos para uma ação coletiva coordenada compartilhando dos acertos e dos erros do todo. E mesmo assim o diretor tem muit mérito por saber escolher e utilizar o que cada indivíduo pode fazer para um fim comum que ele indica. O diretor esculpe o tempo que é necessário para realizar isso. Ao mesmo tempo que esculpe o tempo em que a história que se está contando vai se dar.

O tempo é uma sensação. É relativo e arbitário. É uma ferramenta que precisamos aprender a utilizar. E isso vale para a direção de atores por que tudo que o ator está fazendo ele muitas vezes está aprendendo a fazer naquele instante e o diretor precisa saber lidar com a sua insegurança naquele momento. Para mim não existem atores seguros mas que se defendem ou resistem mais ao novo. Mesmo o ator mais experiente gosta de sentir um frio na barriga e um poucomais de adrenalina. Faz parte da função. Existem sim atores mais corajosos e atores mais covardes. E nada no mundo é mais relativo que o que interpretamos do comportamento humano.

Para mim atores e diretores são a seu modo contadores de história. Os primeiros se atém aos detalhes de sua história e o segundo ata os detalhes dos outros.

Escrito por dchristian às 20h23

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Venezuela II

Passado a primeira semana em Maracaibo tenho uma folga e posso aproveitar para pensar. Depois não sei quantas entrevistas e horas de aula gostaria de poder lembrar de tudo que disse. Ainda não cheguei a um formato fixo e fico feliz por me supreender com o rumo que o curso toma.

Esse curso foi diferente dos anteriores. O grupo era formadao por gente muito atenciosa, concentrada mas com pouca experiência com o trabalho do ator. Somado ao fato da cidade não ser cosmopolita e estar menos exposta ao mundo exterior conservando uma certa pureza. Se fosse do outro lado da fronteira com a Colombia poderia imaginar-la como sendo a Macondo de Gabriel Garcia Marquez. O calor é enorme mas mesmo assim por causa do ar condicionado estamos todos agasalhados.

A cidade é agradável e grande mas ainda preserva uma humanidade.

Escrito por dchristian às 19h37

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06/11/2006

Venezuela

Estou em Maracaibo. Vim para dar um curso de seis dias e depois vou para Caracas.

Maracaibo é a segunda cidade da Venezuela e parece bem calma. Vamos ver o curso está lotado e tem gente vindo até de Caracas (800km daqui) fazer o curso.

Essa é a segunda vez nesse ano que venho dar um curso na Venezuela. O povo é muito simpático e valorizam muito a arte e o Brasil. O cinema que se faz aqui sofre com roteiros e com uma atuação um tanto sobrecarregado. Os filmes que vi eram um tanto ingênuos mas tentavam captar a realidade social do país.

Escrito por dchristian às 01h22

De Caracas para São Paulo

Confiança.

Já faz mais de uma semana que voltei para São Paulo. Não consegui escrever em Caracas.

Foram oito horas de aulas e duas de deslocamento num tráfego que nada deixa a desejar ao trânsito da minha cidade.

L_á foram dois cursos patrocinados pelo Instituto Cultural Brasil Venenzuela, a Embaixada Brasileira,

o Ministério da Justiça (Venezuela), a PNUD (orgão da ONU),

e o Centro de Estudos da Violência e Paz da Universidade Central da Venezuela (vou ficar devendo o nome exato desse pessoal).

Além do artístico os cursos tinham um fundo político explícito: Arte para combater a violência.

Fiquei muito honrado pelo convite por que é o que acredito e aplico!!!!

Um dos cursos foi administrado em Petare, uma das favelas mais populosas da América do Sul com quase um milhão de habitantes e guerra de gangues.

O outro foi num Centro perto da Universidade.

O da manhã era com jovens de 12 à 16 anos moradores desta favela e jovens de 25 anos alunos da Universidade.

Dois mundos muito distantes e distintos. Logo percebi que os mais jovens tinham a auto estima em baixa

e viam nos mais velhos modelos para seu desenvolvimento pessoal.

Isto ia além da diferença visual e de consumo mas algo mais sútil como verem neles pessoas que estavam realizando seus sonhos.

Adolescentes precisam de modelos de adultos que os estimulem e os inspirem.

Não precisam ser heroís mas seria bom que transmitissem uma mensagem propostiva.

Passei essa mensagem para os mais velhos pedi que eles não mudarem a atitude mas tentassem a não ver os jovens como “eles”.

Apenas como garotos mais inexperientes e diferentes deles mas não estranhos.

Queria evitar o voluntarismo e a dramatização de um problema social que ali não importava.

Começamos a semana assim e após cinco dias o grupo se formou criando e realizando suas próprias histórias.

São apenas esboços e propostas para o futuro.

Para mim um presente por que esse trabalhou se deu também no Cidade dos Homens mas com o fim da série, parou.

O projeto em Caracas deve ter continuidade e no próximo ano devo trabalhar com pessoas que sejam multiplicadores.

Para mim dois pontos são importantes envolvimento e autônomia. Somos muito vulneráveis e vivemos em universos paralelos. Sabemos a forca que as imagens podem ter mas por que não temos propostas? Por que não preenchemos essa lacuna?

Eu estou investindo nisso. É algo que corresponde exatamente a minha proposta como artista.

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Gracias Irlanda!!!

Escrito por Christian Duurvoort às 15h51

11/12/2006

O Mistério

Imagens curam mas antes precisam ser tratadas. Mas por quem?

Produzimos por necessidade, seja ela qual for.

Vou voltar a falar de Caracas e desse workshop incrível que dei lá.

Faz alguns anos que não trabalho mais com crianças fora de uma produção de um filme.

E nunca havia falado de cinema, televisão e audiovisual para um público tão jovem.

Senti que eu tinha uma grande oportunidade e uma responsabilidade.

Os cursos na Venezuela são super bem organizados e a importância dadas a elas superam as minhas expectativas.

Elas são estimulantes para mim me motivam muito a continuar a pesquisar, divulgar e não me acomodar com os resultados que já alcancei.

Essa foto abaixo ilustra bem o momento que passei.

O olhar compenetrado, cursioso e ao mesmo tempo conhecedor daquilo que tem na mão me atrai.

Antes uma camêra na mãõ que uma arma (Cidade de Deus na veia). Mas o que registar?

A realidade do seu ponto de vista.

Num primeiro momento registramos a nós mesmos pois isso nos faz refletir sobre o que somos e como somos.

Depois nos perguntamos se é só isso.

E vemos que podemos transformar nossa realidade individual e coletiva.

Esse garoto consciente de que o que vive no seu cotidiano o deixa insegura uma camêra na mão o faz pensar em algo para dizer.

Mas o quê?

Artigo de consumo acessível a camêra que está na mão dele é minha e passou pelas mãos de quase todos alunos. O mistério de encontrar um conteudo para preencher a fita que está lá dentro só pode ser desvendado com formação, ensino criativo e não escravizante, afeto e estimulo.

Assisti um dvd produzidos por iniciativa de um garoto da comunidade de Petare e entendi que fazer não é a dificuldade.

Mesmo os enquadramentos, a montagem e outras partes técnicas são a mecânica da coisa

que só sobrivive quando se tem alma ou algo para dizer (o que vem a ser a mesma coisa). Quando nosso olhar é tocado pelo que vê e produzimos obras para sensibilizar o outro para o belo que percebemos.

Espero voltar para lá para dar continuidade ao trabalho.

(Gracias César!!!

O garoto da foto e você tem muito haver.)

Escrito por Christian Duurvoort às 09h33

 

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