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O momento difícil para o ator é o intervalo entre um trabalho e outro. Às vezes é longo…às vezes é tão longo que é desanimador. É difícil aceitar esse momento. Os primeiros dias podem até ser de rejubilo por que em geral precedem muita atividade…porém se não nos cuidamos vem um baixa. O que fazer?

A dependência que o ator sente do contexto para exercer sua atividade criativa e plena é um dos sintomas que precisa combater. Eu fico muito feliz quando vem alunos novos que procuram se reciclar ou se manter em forma. O ator trabalha para si como fazem outros profissionais. Comunicação é o que fazemos e aprimorar ela não depende de um projeto. Cuidar do seu corpo, exercitar este de maneira que sirva para seu trabalho é fundamental.

Lembro que durante as filmagens do Blindness, após uma díaria de 12 horas o Danny Glover ia para esteira correr por uma hora e depois ainda fazia uns exercícios na àgua. Ele fazia no maior silêncio por que ele estava escutando o seu batimento cardíaco. Só isso. É uma forma de auto observação ativa muito inteligente. Eu faço o mesmo na piscina, apesar de não ser um fã da natação, mas procuro trabalhar a capacidade de pensar e executar um movimento contínuo ao mesmo tempo. Na realidade tudo que eu quero é sentir prazer e não pensar em produzir resultados. Gosto também de caminhar. Faço alguns exercícios posturais todas as manhãs ou fim de tarde…

…enfim não espero.

Criar é um instante…intenso, prazeiroso, arrebatador  para qual você se prepara.  Ter domínio sobre si e ter menos ansiedade de ser. É um exercício constante em que o resultado é para si.

As suas ações, os seus pensamentos influem no meio ao seu redor e como você percebe ele.

veleiro

Sonhar é a matéria

que infla a vela

que torna palpavél

o Espaço

e o Tempo.

Sonhar é entregar-se

para si

Desapegar de si

Criar é velejar

nesse mar.

Coragem

É preciso coragem para ser ator.

Mas também é preciso saber desmontar aquele mecanismo de defesa que nos torna menos vulneráveis.

O trabalho do ator é lidar com o desconhecido. É ir lá e voltar inteiro e vivo. Isso pode ser muito excitante e causar ansiedade.

Ninguém gosta de perder e muitas se põe em risco desnecessário por que quer se mostrar mais forte do que realmente é.

O cinema gosta de mostrar a fragilidade do ser humano e sua capacidade de superar uma situação mesmo sendo um homem comum.

A complexidade, a contradição e a fragilidade em algumas situações humanizam a história e aproximam o espectador das personagens.

Mas ao enunciado desta mensagem: é preciso ter coragem.

Nos meus processos de criação eu prefiro baixar os niveís de adrenalina ao mais baixo possível. Evito excitar, para que o ator possa se questionar a validade

e o propósito de seus atos e de tudo isso que está realizando. Os choques só nos tornam menos sensíveis e a não ser que eu esteja errado

estamos cansados de termos nossos corpos e sentidos constantemente estimulados.

Tudo é rápido.

Estou tendo a experiência de trabalhar apenas com um dado simples: a perda dos sentidos

Isso associado com a desorientação e dificuldade de mobilidade que a falta da visão causa é o suficiente para que o ator possa fazer uma

reflexão sobre uma porção de assuntos pertinentes a dramaturgia sem que eu tenha que fazer algo para isso. Entretanto para mim não se trata de apenas deixar acontecer. Forneço estímulos na medida que eles conquistam algum entendimento sobre o que estão fazendo. A experiência durante o exercício pode ser muito assustador para alguns mas a consciência que produz o encoraja a seguir.

Os atores no Brasil são muito desmotivados pela pouca importância que damos a nós mesmos enquanto cidadãos.

Vivemos hoje em dia mais do que em qualquer época a síndrome do gênio.

Nossos sempre tivemos dificuldade de dialogar e de escutar. É natural que tenhamos dificuldade em nos representar.

Os atores são em geral educados para serem protagonistas e interessantes mas não para serem pessoas comuns.

E aí que está o erro. Perdemos o que temos de mais interessante que é diversidade e a fantástica quantidade de cores, timbres, volumes para sermos um ator.

Queremos ser vistos mais não nos deixamos ver com nossos defeitos, nossas fraquezas, nossa estupidez para mostrarmos nossa crítica e nosso comentário sobre o que estamos retratando.

É preciso ter coragem para simplesmente estar lá e ser impulsionado pelo que a situação lhe apresenta e ir ao desconhecido sem se preocupar em ser um ator aos olhos de quem assiste. É preciso coragem para pensar que seu gesto não lhe pertence mais mas pertence ao imaginário coletivo que não lhe assiste mas que lhe cria em sua mente.

Escrito por Christian Duurvoort às 20h51

25/04/2007

A quem interessar possa

Na mensagem passada eu falei sobre a coragem do ator.

Hoje eu gostaria de falar que saber aceitar suas limitações é saber reconhecer-se e estar próximo do máximo de suas potencialidades podendo entrever com isso um caminho para um maior desenvolvimento e desempenho.

Muitas vezes mentimos (mesmo que seja só um pouquinho) para conseguirmos o que queremos. Dissemos sermos capazes, que não temos medo e não avaliamos onde estamos, banalizando o que se passa diante de nossos olhos. Assim retiramos valor ao que vemos e a nós mesmos. Fazemos isso com intuito de ganhar, conseguindo nosso objetivo sem nenhuma dignidade. Isso é a ética de uma sociedade competitiva a qual nos acostumamos a estar sem nos questionar o quanto estamos contaminados por isso.

O fato de não nos vermos nos enfraquece o espírito fazendo com que nos tornemos medrosos, pretensamente críticos, preguiçosos ou acomodados. Queremos sempre adequar a realidade a nossa vontade. Quando não conseguimos isso nos cegamos ou nos alienamos do nosso meio e dispensamos o maior sentido que temos que é o da adaptabilidade. Que é estar ativo no processo. Adaptar é diferente de estar passivo. Pensamos sempre em adaptar para menos e pouca vezes pensamos que existe mais de uma solução para o problema.

Isto acontece em maior ou menor escala. E se dá em virtude do excesso de competividade. Competidores sacrificam sua energia vital para alcançar seus objetivos sem medir esforços. Eles se fixam em um ponto e partem. São modelos para os outros mas desfrutam pouco do que conseguem por que o esforço que aplicam para realizar o que querem toma toda a sua força. A imagem do corredor extenuado mas que consegue atravessar em primeiro a linha de chegada exemplifica isso.

Eu já recebi prémios por meus trabalhos. Eles não tem muita importância e não me abrem muitas portas mas podem servir para aumentar meu currículo. Foram importantes naquele momento e para aquele grupo de pessoas. Hoje catam poeira em algum armário. Eles servem para me lembrar da minha limitação ( E isso não é ser pequeno). Ao contrário de mim o Tempo não se repete e desconhece limites ( Nós é que lembramos o Tempo de que ele existe.).

No ritual realizamos sacrifícios com o objetivo de aumentar nossa energia vital aprendendo a fazer com menos esforço e conhecer nosso poder pessoal. Porém o ritual exige mais do indivíduo por que ele precisa se curvar para o movimento da natureza e aceitar ser guiado por ela.

O mais paradoxal é que não existe um objetivo num ritual e isso revolta os que gostariam de controlar nossos espíritos. Existe a ação e a contemplação. Existe a metáfora e a consequência. O ritual é um processo educativo de libertação e quando ela perde essa função ela se perverte. Meu trabalho é meu ritual. Todas as coisas se ligam umas nas outras mas não fecham o círculo para que nada se perca sobretudo aquilo que desconheço e que estou aos poucos estou conhecendo.

Já escrevi que ninguém gosta de perder mas isso faz parte da natureza. Todos gostamos de nos valorizar mas sem ver o mérito. E entender que o que devemos receber é o mérito e não o que o senso comum diz ser correto. O mérito se pauta no conhecimento e não apenas no reconhecimento. O conhecimento nos seres humanos faz parte de um processo orgânico contínuo de auto conhecer-se através de estímulos exteriores e de sua relação com seu corpo. Creio que mesmo um trabalho mecânico, como alguém que repetidamente aperta um botão numa máquina possa levar ao auto conhecimento. Toda ação gera consequências e quem as produz deve saber usar melhor suas ações e colher consequências com mais qualidade. Isto se torna o mérito.

Isso que estou escrevendo são pensamentos esparsos que me vem em função do tema que estou trabalhando atualmente. Creio que se aplica aos seres humanos em geral mas os atores se destacam nisso por terem que sobreviver graças a sua coragem.

Gosto de atores que realmente não pensam em ser protagonistas mas que pensam em ser parte da história. Se doar para uma série de ações que mesmos aparentemente mínimos servem para contar a história. Tem um amigo ator que já fez uns vinte longa metragens e nunca foi protagonista. Ele mesmo diz que não gostaria de ser protagonista que prefere ser um coadjuvante, um personagem secundário, ou mesmo de apoio. Não é que ele ainda esteja no processo de aprendizagem mas ele sabe que ele pode ser mais livre fazendo isso e pode dignamente exercer sua profissão.

Claro que existe o caso do sujeito que foi figurante em mais de cem filmes e que disse ter trabalhado com oitenta diretores diferentes sonhando em ser protagonista. Este de tanto não ver o que fazia perdeu a noção da realidade. Competia com sua sombra e pouco reteve dos oitenta diretores alem de algumas fotos.

É preciso conhecer-se para saber o lugar que pode ocupar. É muito difícil tudo isso. Daí que surgem os abusos, as decepções e os engodos.

Escrito por Christian Duurvoort às 23h12

Um pensamento em “Textos

  1. E como diria Emily Dickinson:
    “Se meu barco foi ao fundo do mar, se encontrou ventos cruéis, ou se em ilhas encantadas recolheu suas velas dóceis; ou em que místicos portos hoje ele ancora – Esta é a míssão de meus olhos, baía afora.”
    Sempre sonhar… Sempre velejar!
    Sorte nos sonhos, nas criações, na nova casa!
    Beijos,
    Adriana V.

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