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Il Uomo Imaginário

Termino a minha participação no filme A Montanha, estou num trem viajando para Milão e como de costume escrevo. Amanhã volto para São Paulo para começar  a oficina Ator Imaginário na Faap. A turma está quase completa.

Nesses últimos dias tivemos a presença da neve. O cenário que faltava dentro do filme. Emoção para a equipe brasileira. Alegria dos que viram neve cair pela primeira vez. Alivio para aqueles que ficaram apreensivos pela sua ausência. A neve foi uma das razões para se filmar na região de Cárnia pois é a que mais neva na Itália. Só que a lei do improvável é cruel.

Fiquei duas semanas a mais para orientar os atores em cena, dando mais volume as propostas do diretor e facilitando o trabalho dos atores. Já que quando estou no set a minha atenção se volta a dramaturgia, o que aquilo tudo está dizendo e como estamos fazendo com que aquilo se produza. As minhas intervenções são para aprimorar, tornar mais claro as intenções dos atores ou diretor com as ações.

Dirigir é fazer escolhas, eu apenas executo com meus instrumentos as escolhas do diretor.

Essa ética precisa ser respeitada. Assim como eu respeito o desejo do ator de seguir um caminho ou outro. No máximo eu questiono por que trago uma avaliação de que aquilo que se está fazendo representa dentro da dramaturgia da história ou daquela personagem.

A dramaturgia é uma construção em que cada peça independente se relaciona com as outras. Parece uma trilha de peças de dominó que quando uma cai leva consigo outras, só que de modo não linear. Adoro trabalhar em cima dessa construção. É necessário ter uma visão da macro estrutura e ao mesmo tempo micro estrutura. É preciso saber escutar o diretor, os atores e saber ler o roteiro. Também é preciso saber que cada bloco tem o seu tamanho, seu peso e sua ordem na estrutura. É preciso estar ciente que cada decisão pode levar ao desequílibirio  do todo mas que é possível reencontrá-lo em outra decisão. É importante levar em conta que nada é definitivo mas que dificilmente pode-se voltar atrás.

Isso é muito complexo e o ator precisa ter uma noção disto para escolher quais propostas fazer ao diretor.

Da minha parte eu procuro dar aos personagens muitas camadas que muitas vezes escapam na escritura do roteiro. Esse roteiro tinha isso. Faltava “carne”para os personagens. Uma história de amizade, superação e guerra. De homens na Terra de Ninguém tentando fazer a sua sorte. Um filme de desencontros, de desinformação, do improvável. É mais fácil a cobra fumar do que o Brasil ir para a guerra. Pois é a cobra fumou.

Isto estava contido no roteiro mas é uma história de personagens que na soma fazem uma pequena coletividade em que expressam sua individualidade. Uma individualidade abalada pela guerra. Personagens que representam a passagem para os tempos modernos, o fim das nações e o declínio dos valores da sociedade como eram até antes da guerra.

Enfim pouco a pouco fomos com muitas contribuições dos atores dando estofo aos personagens. Em alguns momentos até contrariando a visão do diretor para poder flexibilizar seu modo de pensar.

A Montanha foi um das produções mais coletivas que participei. Pelo menos no que refere a história e aos personagens. Foi uma negociação pois o diretor era também o roteirista e queria resguardar a sua proposta inicial. Mas também queria escutar os atores. Foi muito bom. Tirei muitas lições disto. É raro isto acontecer. Vivemos todos juntos no mesmo hotel muitas vezes almoçamos e jantamos juntos depois dos ensaios e das filmagens. E sem fazer distinção de quando era trabalho e quando era lazer continuávamos a criar.

Os atores europeus trouxeram seu modo analítico de trabalhar enquanto os brasileiros o seu modo intuitivo. Às vezes era o contrario. Mas o importante que todos queriam jogar juntos, sem estrelas ou desconfiança. Quem souber aproveitar vai ter mais que um filme.

Eles continuam lá na batalha da produção.

Enquanto o meu trem segue seu curso pela paisagem do Norte da Itália.

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