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Há uns anos atrás eu não usaria a palavra espiritual no meu trabalho pelo simples fato de que esta palavra traria desentendimento. Que enfraqueceria o pensamento. Ou diminuisse a objetividade com que gostaria que se recebesse a informação.

Parte por preconceito, por ignorar a existência disto na minha vida, por pensar que tudo é possível de explica pela razão, por ver que muito se diz em nome da espiritualidade mas pouco realmente se faz. Que há muita boa vontade mas só alguns tem acesso a informação e manipulam ela a seu modo. Uma informação que não poderia ser compravada em uma segunda fonte confíavel…enfim um modo de pensar que dizia: “nada que pertença ao mundo pode existir!”

Já faz um tempo isso mudou. Se transformou. Admitir o Desconhecido traz de volta uma alegria e um ânimo que o saber de fato retira.

Ainda assim há muito voluntarismo nisso tudo. Há muita aspirina e pouca cura. E eu não quero que meu trabalho vá por esse caminho. Cura para mim é caminhar. Fim só quando deixar de ter carne para sentir. Quero viver o presente.

Ficamos vendo símbolos e sinais em tudo quando na realidade é mais simples.

Mas para chegar ao simples sem negar ou retirar seu valor é complexo.

Eu gosto de dizer que nenhum personagem ou texto ou roteiro chega nas minhas mãos por acaso. Alguns ficam por muito tempo na minha cabeça feito um enigma. Por que?

Pensar assim me dá ânimo e alegria.

É o suficiente.

Aquela pergunta que não canso de fazer: Por que alguém se presta a emprestar o seu corpo, seu tempo, sua mente em viver uma história que não é a sua?

Resposta: Por que há alguém que precisa ver, desfrutar, compartilhar, sonhar com aquela história.

Oscar Wilde escreveu: Toda a Arte é Inútil.

Logo o que faz um ator, um músico, um pintor, um escritor é inútil.

O Homem fechou os olhos para tudo aquilo que lhe faz pensar na sua Existência.

Ela dá uma razão para existir que é temporário e tem medo da morte.

Tem medo do desconhecido.

Tem medo de si e por medo comete os piores atos.

A Arte transgride a finalidade da morte e rouba um instante do tempo.

Lembro da Salomé do Oscar Wilde que diante da cabeça do seu amado discursa sobre a sua vida, sobre o que fará da sua vida daí em diante e termina dizendo “O Mistério do Amor é muito maior que o Mistério da Morte.”

Celebremos o Amor diria mais de um artista renascentista.

Temos uma visão muito romantizada de nossa arte. Eu mesmo às vezes me perco na minha paixão. Mas recupero logo o chão e me calo.

Não é importante saber por que alguém está lá. É necessário apenas.

Eu só quero que aquela pessoa que se diz ator desfrute mais do que faz. Que receba mais. Que esteja à frente dos seus atos.

Acredito que um mundo sem arte é inútil, assim como um mundo totalmente objetivo, justificado, voltado para o temporal seja um mundo que não valha a pena existir.

A existência humana é uma frustração atrás da outra.

E entre elas ainda pode se ter prazer.

Estamos caminhando para uma noite bem escura.

Viajando…mesmo sentados. Tudo roda com o mundo.

Com ou sem poesia.

Afetividade…é difícil de trabalhar. Expõe mais que a violência.

As imagens de horror são mais difundidas que as de afetividade.

Há algo moralista nisso tudo.

Porém aquilo se chama imagens de afeto são em geral imagens idealizadas, romantizadas, conservadoras e em geral vem acompanhadas do desacerto, do desastre…de uma maneira punitiva que nos mostra que estamos fudidos. Poucas vezes a dor é colocada no seu lugar ao lado do afeto. Queremos extirpar a dor ou valorizar demais ela…Também tem o lado fofo…que é horrível.

Nos últimos ensaios tenho visto demonstrações de verdadeiro afeto e verdadeira dor.

Acima de tudo espero que este filme possa captar isso.

Eu estou fazendo a minha parte. Trabalhando o silêncio. A respiração.

O desarme. A possibilidade de se deixar ver tão nu e sem apelo.

Já que nus chegamos e nus nos vamos.

Para onde?

Outro devaneio.

Outra Inutilidade.




Um pensamento em “Sobre a Inutilidade

  1. Também já tive dificuldades com a palavra “espiritual”, por conta de identificá-la com religião organizada (que procura enquadrar e dirigir a experiência espiritual das pessoas). Só quando relacionei espiritualidade com transcendência é que começou a fazer sentido para mim. E a transcendência tem muitos caminhos, dos quais a religião é apenas um. Trnscendência, contato com uma outra realidade além da material e cotidiana, é uma necessidade do ser humano. E a Arte é uma via privilegiada de contato com o intangível.
    Te deixo uma citação do escritor e psicólogo amercano William James, acho que vai fazr sentido para você:
    “We work in the dark. We do what we can. We give what we have. Our doubt is our passion, and our passion is our task. The rest is the madness of art”

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