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Desarme-se…

o relato da aventura na Colônia Agrícola Penal ainda tem muito que contar. O primeiro post escrito sob a forte emoção do momento expressa isso. Voltei de lá com os olhos e o corpo marcado pelo cansaço. Nem o Ensaio sobre a Cegueira foi tão cansativo.

Eles já estão acabando de gravar e ouço poucos mas bons relatos do que aconteceu.

O meu desejo é que não houvesse um muro separando as pessoas entre nós, a sociedade e eles, os marginais. Até por que somos todos parte da sociedade e o criminoso está para mostrar o quanto precisamos da sociedade para poder existir. Não existimos isoladamente. Podemos ser observados e aceitos enquanto indivíduos mas sempre em relação ao meio. Nossa cegueira e nossa porção de culpa pela violência é de não enxergarmos isso. O Brasil Rico não aceita o Pobre. E o Brasil Rico inventou um conceito de inclusão que mede a riqueza pelo consumo e não pela qualidade de vida ou a qualidade do que consome. Eu não sei com precisão os números mas me parece que hoje a classe média cresceu em 8% mas o que isso significa em termos reais e quais são as possibilidades de se manterem ou mesmo de ascenderem a uma posição melhor os filhos desta classe média emergente. É uma boa questão.

Eu fiz de tudo para que o elenco tivesse uma qualidade de atuação homogênea e ao mesmo tempo fosse preservada as qualidades individuais. Trabalhei com um grupo de quase noventa pessoas por dia. O meu método de trabalho se fundamenta em humanizar o processo de produção artística. Mobilizar dentro dos atores, experientes ou não, as forças necessárias para criar um universo rico, complexo e humano. Sobretudo num lugar duro como a cadeia existe a fragilidade do ser, que é escondido como ouro embaixo de uma armadura de forte. Entretanto a maioria não é marrento como muitas vezes se vê nos filmes. Eles se preservam, aceitam as regras da coexistência, evitam qualquer exposição e procuram se ocupar para não pensarem no tempo. A maioria sente falta da familia, de Deus, de espaço.

No primeiro dia de trabalho eu coloquei uma fita crepe no chão desenhando um quadrado para ilustar aquilo que no cinema se chama de quadro. Aquilo que a câmera vai ver e captar. Lá no meio coloquei uma cadeira e pedi que cada um fosse sentar lá e ficar um tempo. É um exercício simples mas que para mim resume o que difere a vida cotidiana da experiência da ficção. Ali cada um era vísivel e podia ser visto para os outros. Ali cada um podia se valer do que sabe para suportar a pressão de estar à frente, de assumir um lugar à frente dos outros.

A respiração muda. Nos alteramos. Não importa se o sujeito tem um monte de horas de vôo é aquele frio na barriga quando se senta lá. Estar dianteda câmera é como bater um penalti no estádio lotado a cada minuto e ter que acertar o gol. A única bola na trave que ainda lembramos com alegria foi do Baggio em 94 que nos fez campeões do mundo. 

“Nem todo mundo na cadeia fez o que fez por necessidade. Muitos fizeram para sentir a adrenalina.” Me esclarece com toda sinceridade um dos rapazes. Confirmando aquilo que todos sabem nossa sociedade está criando essas oportunidades. Nossa sociedade de consumo está criando pessoas dependentes de consumo, insatisfeitas com que consomem e com a cabeça cheia de falsa idéias sobre o sucesso. Mas nem por isso tenho que ser condescendente com que passa dos limites. Paga o indvíduo e paga a sociedade que está se ausentando.

Depois pedi que duas pessoas entrassem no quadrado, que fizessem o exercício e não se preocupassem comigo ou produzir alguma coisa interessante. Os atores na sua maioria tiveram reações estranhas nesse exercício já que são treinados para serem interessantes e precisam aprender a calibrar a intensidade disto. Quando profissionais se misturam a não profissionais ficam evidentes os vícios, hábitos e a fragilidade daquele profissional. Existem uma tendência de o ator se isolar no seu mundo de histórias e assistir o mundo pela janela ao invés de estar nele. O ator acaba se tornando dependente do resultado, de que o que ele faz produza uma sensação, um sentimento nele. Ao invés de desfrutar do que seus sentidos, do que seu corpo percebe. 

Esta é uma questão complexa. Às vezes o não ator percebe que está atuando e se choca com isso por que nota que aquilo que ele faz produz resultados que ele não alcança no dia a dia. Somos aceitos mesmo sendo horriveís. Somos recebidos. Fazemos parte de um todo. O que fora do mundo da história não faz sentido imediatamente. A não ser quando você julgado e condenado por isso. Quando bate no muro das limitações e vê que extrapolou.

O problema do ser humano é que ele passa mais tempo se julgando do que fazendo algo. E seu julgamento é pesado. Assim ele pode justificar sua revolta, sua rebeldia e seu sofrimento. Mas é tudo invenção. 

A Natureza é injusta, a Justiça é dos Homens, por isso é imperfeita como os Homens. Assim comecei os trabalhos nos últimos dias de ensaio. Estávamos indo para o roteiro…o meu melhor estávamos nos alimentando daquilo que era o contexto do roteiro. Os homens que fundaram o Comando Vermelho queriam melhores condições de vida dentro da cadeia. Depois virou o que virou, por que hoje nenhuma facção tem uma finalidade para a sociedade, elas são empresas. Entretando se eu estava lá dentro daquela instituição era por mérito daqueles homens apesar do que cometeram no seu passado. Então seria necessário valorizar o presente ao invés de louvar o passado e aprender a desfrutar mais. Para mim é uma questão de príncipio não dar moral para bandido simplesmente por que isso é interessante. Sou um comunicador, trabalho para a inclusão, para o convívio em comunidade. Não fui lá para conhecer os piores seres humanos da face do planeta mas conhecer o ser humano na sua totalidade e a sociedade na sua limitação. Eu nunca havia estado numa cadeia. Dos atores quase nenhum. Por que?

Por que nossa sociedade prefere esquecer, afastar, isolar e fingir que não existe em nós um delinquente em potencial. Que não alimentamos esse sistema com nossas pequenas trapaças, nossas pequenas corrupções e pior nosso descaso. 

Eu fui lá para levar a minha arte onde é possível. Onde eu poderia juntar a minha voz com aqueles que querem ter uma chance. Por sorte aquela cadeia reunia condições de segurança e disciplina para que um trabalho sério e profundo pudesse ser feito. 

Imagino que quem está lendo deve estar se perguntando se eu levantei todos esses temas com os internos também. Por certo, parece que o relógio me favoreceu e pude fazer um trabalho tão intenso quanto isto que estou escrevendo aqui.

Vou continuar em breve…

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