Oficina de 2011

Oficina de Interpretação e Direção de Atores no Cinema - Fevereiro de 2011

Esse ano quero trabalhar muito!
Tive experiências muito enriquecedores em 2010 que vou compartilhar no próximo curso.
Técnica é necessário para facilitar o trabalho. É algo simples mas isso não quer dizer que seja fácil de obter. É preciso disciplina e sobretudo uma disciplina que esclareça para você o que necessária para sua evolução.
Cada indivíduo é diferente e ao mesmo tempo somos feitos da mesma matéria tendo elementos em comum.
Aceitar essa condição é o caminho para comecar a desenvolver uma relação criativa com a sua disciplina.
Técnica não é dor nem é algo que você está atrás ou precisa conquistar. É algo que existe em tudo. Até para abrir uma porta. Técnica é percepção do que se faz, de como e de como utilizar para a finalidade que eu dou a minha ação.
Continuarei no curso… mas essas são as minhas palavras para o começo do ano.

O que vem pela frente?

Olho para frente mas é no Presente que quero ficar.

Esse blog é uma continuação do meu trabalho.

Comecei escrevendo para meus alunos mas aí passei a gostar de escrever para além da questão técnica do ator e da arte enquanto produto para ser prático e exercitar aquilo que proponho em aula.

A Observação e a Auto Observação.

A Arte é Contemplativa e por isso Inútil. Pode até estar impresso numa camiseta, num imã de geladeira, postado no You Tube ou numa xícara de café. O Estar da Arte causa, provoca, aciona, sua inutilidade invade a sensibilidade e nos leva a algum lugar na Imaginação. Ou seja o Inútil não quer dizer passivo mas muito Ativo.

Resumo antecipado do ano.

Encontros.

Esse ano visitei lugares novos e lugares conhecidos mas de maneira nova.

Fui ao Xingu. Estive com povos que tem uma outra cultura muito distinta da minha mas que moram dentro deste lugar chamado de Brasil. As suas terras tem muitos nomes com significados diferentes. Já o nome do meu país ganhou mais significado ao visitar esses lugares.

Já escrevi sobre o Xingu. Sobre o que eles me perguntavam e como eles mais uma vez me mostraram que com diferenças somos todos seres humanos.

Ali usei a técnica da Contemplação e a Ética para desenvolver um trabalho de confiança pois fazer ficção é dar vida a idéias que nem sempre são as suas e que podem gerar confusão. Daí a necessidade de ser claro ao apresentar as propostas e honrar os compromissos estabelecidos. Ou seja falar pouco para não morrer pela boca. Para o indígena a palavra vale muito.

A mesma coisa vale para o praticante do Candomblé, um Congueiro do vale do Paraíba, e uma criança seja de qual cidade for.

Palavras. O que ganhamos quando aprendemos de verdade a exercitar nosso papel, seja ela na realidade, seja ela na ficção, é dar valor a nossas palavras.

Isso eu pratico. É difícil por que é gostoso valer, dar palpite, comentar, fuxicar…matar o tempo abrindo a boca para não dizer nada.

A imagem mais forte desse ano está gravada mas provavelmente não será editada no documentário. É de um grupo de meninos em silêncio diante da câmera, que não conseguem abrir a boca durante dez minutos, até que um deles me diz: Neste filme eu quero ser figurante, eu não quero ser protagonista.

Ao que respondi dizendo que era impossível ele ser figurante por que eu fui até alí por que a sua comunidade me pediu que ele fosse figurante do seu filme. Que alí não haveria figurante, que não podia haver figurante, que mesmos calados todos eram protagonistas.

A lição deste ano foi Humildade.

Atuei, dei aula, dirigi, preparei, escrevi… mas o que aprendi foi isso.

Axé a minha vida por me dar essa oportunidade.

O Ator Imaginário em NYC

No meu último post eu ainda escrevia sobre os Pontos de Cultura, sobre os nove documentários que dirigi e que agora estão em pós produção. Estão ficando lindos. Algumas idéias ainda podem ser melhor exploradas mas ficarão para uma próxima temporada, se houver. Enfim a Beleza desses lugares está presente. A Alegria, a Dignidade, o Prazer, a Generosidade das pessoas que fazem a diferença na sua comunidade!

Axé!

Já faz um mês mas muitas coisas aconteceram. Tivemos, o André Meirelles e eu que re escrever os roteiros (ainda faltam dois). Fizemos assistindo todo o material bruto.

Nesse meio tempo surgiu um convite de ir para New York participar do processo de seleção de um ator para um filme americano. O diretor inglês Stephen Daldry me convidou por que queria conhecer de perto meu trabalho e para que eu desse meu parecer sobre os candidatos. A dificuldade é que o ator é uma criança e ela sustenta o filme.

Foi muito bom o trabalho. Eram seis crianças, todas diferentes e talentosas. A maioria tinha alguma experiência com tv, comercial ou teatro. Algumas já tinham até seu próprio coach (a minha função nos EUA recebe esse nome apesar de eu não gostar). Salvo por um os candidatos vinham de lugares como Califórnia, Canadá, Inglaterra mas os testes iniciais já haviam sido feitos até na Austrália.

A produção é um baixo orçamento em NYC, onde se diz que é a cidade mais cara para filmar. Minha estadia seria de uma semana que ocuparam bem.

O diretor já tinha a sua equipe que havia trabalhado com ele em produções anteriores. Ele mesmo é um diretor que vem do teatro e trabalha muito com o ator. Enfim uma situação diferente do que havia experimentado aqui. Sobretudo por ser em inglês e por me confrontar com um estilo de preparação diferente de como estou acostumado aqui.

Ele tem um Dialogue Coach, um preparador de díalogos, de sotaques, uma pessoa que estuda com o ator cada frase do díalogo, buscando a inflexão, a musicalidade, a intenção. Enfim uma pessoa muito competente e de confiança do diretor mas que faz como técnica e não como uma direção definitiva. Achei interessante e puxado. Mas vi que eles dominavam o assunto e fui absorver um pouco do trabalho deles.

Ciente de que modo de trabalhar é diferente propus ao diretor para que eu desse uma oficina com os seis meninos ao mesmo tempo. Argumentei que seria bom para romper uma situação de competição entre as crianças, diminuindo a ansiedade e aumentando a confiança em nós. Fiquei curioso em ver como seria recebido meu trabalho e ciente de que teria se fosse o caso me adequar as condições daquele momento. Aqui no Brasil gozo do fato das pessoas já me conhecerem e saberem como trabalho mas lá não.

Foi um sucesso. Em dois exercícios os meninos estavam à vontade e o diretor e sua equipe puderam ver mais deles do que nos encontros anteriores.

Assim eu recebi  ”carta branca” para trabalhar como quisesse com as crianças.

Busquei trabalhar a agressividade e afetividade. A história, que não vou contar aqui, é uma história de família onde a personagem principal é essa criança.

Ela aparece em boa parte do filme e por definição teria que ter uma palheta de ações, cores, movimentos grande indo do drama à comédia. Além de ter muito carisma.

No fim de toda essa sessões discutimos estratégias e a dramaturgia para entendermos qual a melhor opção e o melhor candidato.

As diferenças de modo de trabalhar foram reconhecidas mas entendidas como complementares. A língua não foi problema nem a diferença cultural. No fundo temos as mesmas necessidades, a abordagem que cada um faz difere, mas se completa quando trabalhado em equipe. O grande aprendizado desta viagem é a necessidade de se preparar a equipe e como a liderança faz a diferença.

Liderança se alcança necessariamente por conhecimento humano. O domínio da técnica é importante mas a capacidade de administrar o equipamento humano é fundamental. Num projeto complexo é necessário ter mais de uma liderança mas elas precisam estar em harmonia.

Da minha parte eu fui com o intuito de somar. Tenho muita confiança na minha metodologia e na minha abordagem do ator. O reflexo disto foi que ganhamos tempo e qualidade apesar do pouco tempo e da pressão. Isto se deve ao fato de que o que eu proponho é muito acessível, transparente e prazeroso (libertador se pensarmos no criatividade). E eu não sou rígido mas criterioso.

Ainda está indefinido se eu volto para fazer parte da produção mas certamente deixei um belo cartão de visita.

O que faz a diferença?

O que aprendi com o Projeto Ligando os Pontinhos é que as pessoas fazem a diferença.

Métodos, Sistemas, Organização, Produção Cultural, Transformação, Libertação, Criação Artística, Educação, Filosofia, Revolução, Idéias… o que quer que seja surge de pessoas. De indivíduos que se dispõem a sair do lugar comum da massa mediocre dominada pela passividade, pelo lugar comum da comodidade, conformismo, e pelo individualismo doente para se dedicarem a dar um rumo a sua vida e mobilizarem  o meio em que elas vivem.

Engraçado que nós que passamos o tempo a admirar o big brother do Norte (EUA ou USA) ainda não somos capazes de entender que a  mensagem que 90% dos filmes que são produzidos lá dão é de que VOCÊ FAZ A DIFERENÇA!

Enquanto aqui continuamos na denúncia e a repetir um discurso de que nada adianta por que estamos fadado a desgraça. Um pessimismo que facilita a vida dos dominadores e reforça nossa atitude submissa.

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Pelo Brasil Afora

Estou de volta a SP depois de duas viagens maravilhosas.
Conheci Araçuai, no vale do Jequitinonha.
Um projeto encantador de educação informal, de arte, de acolhimento e de valorizar as crianças. Foi muito emocionante. Uma educação afetiva é o que precisamos.
Professoras motivadas, Advete, Cleia, Paula e mais outras. Francielly, Igor e Clever nossos apresentadores mirins.
Maria Lira. A perma cultura. O cinema dos meninos de Araçuai.
Depois foi Olinda, Pernambuco.
Povo guerreiro. Povo festeiro.
Povo da Alegria. Povo da Paixão.
Muitos mistérios no Terreiro da Umbigada, no Terreiro Oxum Karê.
Mãe Beth, Kinho e toda sua linda família de muitos filhos.
São quase duzentas horas de material gravado.
A equipe Gustavo, René, Angélica, Raphael e eu ralando com muito prazer.
Faltam ainda mais sete pontos de cultura.
Lendo o livro do Celio Turino, ex secretário da Diversidade Cultural, entendi que o Ponto de Cultura é a Bolsa familia da cultura.
No meio do processo sei que temos muito e podemos tirar vários programas. O segredo tem sido muita clareza, díalogo e transparência. Eu vou para cada lugar disposto a ouvir, a dar, e a receber. Quero que cada programa reflita o lugar e que não seja apenas a minha visão mas uma visão daquilo que o ponto quis me dar.

Tensão Pré Natal

A cabeça mais rápida que mão.

Tenho um tempo sem me conectar.

Sem comentar, inventar, sem criar.

Estou em gestação.

Um novo passo.

Um projeto que começa dentro da minha casa.

Vou aplicar meu método de trabalho na direção de documentários.

Visitando nove cidades vou interagindo, por que é assim meu modo de trabalhar, com nove Pontos de Cultura. Vou captar… conhecer…. enfim participar, interferir e estimular as crianças/jovens de cada um desses lugares a fazerem um retrato do espaço cultural.

Quando morava em Paris fui fazer um teste para atuar numa companhia de teatro em inglês e o diretor me perguntou o que eu considerava a mais importante função do diretor. Eu respondi que era inspirar as pessoas. Motivar as pessoas. Estimular elas e dar suporte para que elas pudessem experimentar. Ele ficou em silêncio e sorriu. Porém ficou só no discurso. Num momento do teste prático ele não participava. Ficava só olhando. Fiquei perdido e claro num fui aceito.

Só que essa convicção que expressei naquele me momento e que me acompanha até hoje eu já tinha antes daquele encontro. E confesso que a experiência dolorosa deste momento me fez enxergar que discurso só não basta precisa ação.

No momento agora que me exponho como diretor sei que a imperfeição e a fragilidade só podem ser superadas com flexibilidade e escuta. Pois de outro modo será contabilizar frustrações e desejos não atendidos.

O dialogo que tenho feito nesse projeto com meus interlocutores é de clareza, transparência e se deixar ver para que estimule movimento conjunto.

Colaboração.

Na época em que trabalhei na série Cidade dos Homens eu chamava meu método de colaborativo. Mas nem sempre é assim.

O tempo que se dispõe é fundamental.

Se por um lado liberta a criação por outro lado limita a mesma por que o áudio visual é um processo de fixação de imagem e som para sua posterior manipulação sem a presença dos atores. Ou seja por mais que se queira disparar a câmera o tempo todo com o intento de captar todo o processo e todas as colaborações de cada indivíduo, uma pré seleção se faz para que se possa aprimorar.

Excesso ou abstenção são os caminhos do Homem solitário. (Margeuritte Youcernar em Memórias de Adriano)

É o que motiva que realmente importa. E que por fim se expressa no produto final.

Quanto nos aprofundarmos no que nos motiva mais conseguimos aprimorar nossa comunicação.

Hoje é domingo e na segunda feira parto para o Vale do Jequitinonha conhecer o Centro de Cultura e Desenvolvimento da Cidadania.

O roteiro está pronto para a etapa de produção.

O trabalho que realizam lá é lindo. Muitos jogos, muita valorização da vida, do afeto, do comprometimento com seu desenvolvimento, com uma pedagogia do convívio… e uma expressão de Beleza que enche os sentidos.

Isso foi o que a Pesquisa trouxe para mim…

Imagina quando eu estiver lá.

Tem muito canto e dança em roda.

Se der eu publico imagens de lá.

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De volta a SP

Foi uma aventura essa última semana de preparação. No meio do Jalapão. Cercado de atores experientes e também inexperientes. Para mim é difícil falar de não-ator. Como é difícil falar em não atuar. Para mim são todos atores. Alguns seguem fazendo isso outros não. Alguns se aprofundam, se reciclam e se aperfeiçoam. Outros não. Alguns batalham muito para conseguir espaço. Outros já conquistaram e batalham para conseguir continuar.
Emocionante foi me despedir dos meus amigos do Xingu. Os povos indígenas são muito especiais. Aprendi muito com eles.
Abrir os olhos para ver algo diferente é bom.
Ter sucesso é uma questão de ponto de vista.
Ter prazer é algo muito especial.
O que vi neles foi um prazer enorme em viver. E não confundir com satisfação ou passividade.
Para fazer uma festa só precisa cantar e dançar.
A vida na aldeia é celebrada em cada detalhe. Tudo é um grande ritual.

Delicado

Eu tenho feito filmes que tem tocado temas sociais.

Feridas abertas com atores que sentem na pele o que é.

Esse aqui não é diferente.

Os povos indígenas sofrem com a ocupação feita à força de suas terras e pouco se dá atenção para o tema.

Enfim nada de novo.

Mesmo por que faltam propostas para a sociedade brasileira que só está preocupado que não falte um carro na sua garagem, já passamos da fase que não falte comida.

Comemos mal mas comemos melhor que muita gente mundo à fora. Graças a nossa agricultura. Graças ao desenvolvimento feito a qualquer custo. Enfim a história se repete.

Daqui de Palmas trabalho pela Paz.

Justiça é algo bem mais dinâmico que os nossos julgamentos.

Aliás nossos julgamentos são muitas vezes uma justificativa para não fazermos justiça, não trabalharmos por melhores condições e ficarmos na apatia. Exprimindo opiniões sem se dar conta de que elas apenas poluem o ar. Melhor é aprender a respirar.

A Diversidade

O que fazer quando se está numa sala de aula e quatro línguas são faladas sendo que a sua língua não é a língua materna dos alunos? Mas ao mesmo tempo entre eles há uma distância linguística e cultural. Todos Brasileiros… mas de etnias diferentes.

Eu nunca me senti tão estrangeiro quanto nesses últimos dias.

Tive com pessoas de diversas etnias: Suiá, Ylapeti, Kuikuro, Kaiabi-Suiá, Trumai

Aqui no Xingu o sobrenome das pessoas é a mesma da etnia.

Esse termo índio que se usa generalizando povos, costumes, traços físicos é totalmente equivocado.

Facilita e eles mesmos usam como forma de agregar todos os que tem a sua origem nesse solo, nesse pedaço de chão que um branco batizou de Brasil.

O Xingu com sua diversidade é um país dentro do nosso país. Não tem autonomia de um país constituído mas tem a dimensão e a complexidade de um. Tudo lá precisa ser gerenciado, os recursos naturais, a água, o peixe, a caça, o espaço físico, as fronteiras…

O Xingu é um país que não tem moeda própria.

Hoje me explicaram que um colar de casca de caramujo, que é muito lindo, tem um valor muito grande tal como o dinheiro para nós. Por que é muito difícil ter o material para fazer e muito difícil de trabalhar com esse material. Ao mesmo tempo me disseram que o dinheiro que eles conseguem aqui fora com a gente fica aqui mesmo pois é para comprar coisas para levar para lá.

Lá dentro se faz troca. Troquei uma lanterna por um colar. As meninas trocam sutiãs por pulseiras, cintos… O adorno tem um valor enorme.

A Troca é um sistema econômico que existiu a muito tempo atrás antes de inventar o dinheiro. Por coincidência hoje em alguns países de primeiro mundo existem redes de troca de coisas e serviços que surgiram como alternativa para quem não quer ou não tem dinheiro para gastar. Ou seja a evolução de uma proposta nem sempre é uma idéia nova. O Tempo é circular.

A relação com as crianças é incrível. Elas são muito obedientes mas ao mesmo tempo livres. As brincadeiras são pescar, caçar pequenos animais, fazer flechas mas todos obedecem os pais sem muita discussão. Eu não vi nenhuma criança apanhar. Tampouco vi nenhuma fazer malcriação. Os pais ficam em cima e há um controle social feito pela comunidade. As crianças tem brinquedos industrializados mas não em  muita quantidade. E como não há televisão o tempo todo não há estimulo para o consumo infantil.

Uma coisa que me disseram que se algum jovem pegar algo que não é seu e um velho ver. O jovem vai para a reclusão. Não existe polícia.

Quando eu quis exemplificar situações de conflito me deparei com o fato de que eu desconheço os valores daquelas pessoas.

Pensando mais um pouco eu acredito que a falta de valores é um dos fatores que geram tanta neurose e violência nas relações urbanas. No final a competividade, a agressividade, a produtividade, o consumo, são os valores comuns na sociedade onde eu vivo. Enquanto nas aldeias é a harmonia, a convivência, a manutenção de um modo de viver seriam seus valores. Imagino que entre a população das aldeias deve existir um questionamento, principalmente quando são confrontados com a tecnologia do mundo dos brancos. Imagino que eles devem ficar bem divididos entre aderir a nossa máquina de louco ou se manter onde estão.

O que eu tenho pensado que chegamos ao final da linha e acreditamos muito que só o avanço tecnológico seria o suficiente para nos tornar mais felizes.

Nem um nem outro.

Eu não sei se quero trocar de vida com meus alunos mas me alegro com esse questionamento saudável que me faço agora.

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Xingu – A Oficina no Diaurum

Acabo de chegar do Parque Indígena do Xingu preparando índios da etnia Kaiabi para participarem da produção do filme Xingu. Tanto no elenco principal quanto no elenco de apoio.

A história dessa etnia é muito importante para ilustrar a importância do Parque do Xingu para a população indígena. Eles são originários do Pará mas foram trazidos para o Xingu para que não desaparecessem pois a exploração econômica de suas terras ancestrais feita de invasões violentas e ataques a suas aldeias, representavam uma ameaça real a sua sobrevivência. Ali eles reconstruíram suas aldeias e refizeram suas vidas em terras menos ricas mas mais seguras. Os Kaiabi também se empenharam muito na luta pela demarcação e preservação do Parque, junto aos irmãos Vilas Boas.

Os Kaiabi falam português, conhecem nossos costumes e nossos modo de viver. Eles tem uma cultura rica que conheci superficialmente mas nela não existe teatro.

A dança é uma feita em coletivo, um grande corpo que se move com muitos pés que batem o ritmo no chão. O canto tem uma harmonia diferente e melodias que revelam uma grande espiritualidade. Mas sempre cantado em grupo. As letras trazem força, ou evocam os antepassados, ou estão em função de alguma situação que se vive no presente.

A Pintura corporal e assim como os adornos são formas mais individualizados de expressão.

Existem contadores de história mas eu não vi nenhum em ação.

Hoje em dia alguns cursos de formação em Saúde e Educação utilizam o teatro improvisado como ferramenta didática.

Mas nada de teatro.

Enfim eles se mostraram muito interessado em cinema. Já tiveram notícia ou mesmo experiência com essa linguagem tendo sido objeto de alguns documentários que segundo eles disseram não chegaram a ver. Isso é uma fonte de mágoa e desconfiança.

Apesar disso eles se mostrarem receptivos, atentos e disponíveis.

Os participantes desta oficina haviam sido pré-selecionados por meio de testes realizados pelo Chico Accioly. Um experiente produtor de elenco que foi visitar as aldeias de barco durante semanas, convencendo caciques e pessoas a se prestarem a simplesmente contarem uma história para uma pessoa imaginária.

Das quatrocentas pessoas testadas chegamos a um grupo de quase 50. Que seriam o elenco de apoio, aquele grupo que poderia a qualquer momento estar interagindo com os principais. Entre essas pessoas também precisávamos encontrar um elenco principal kaiabi para estarem constantemente em cena com os principais brancos.

Escolhemos nove que virão para Canarana para uma outra oficina mais curta para que possamos definir esse elenco.

Isso é um resumo do trabalho.

Essa foi a primeira vez que trabalhei num lugar onde eu não entendia a língua local mas as pessoas falavam a minha língua.

As diferenças são óbvias. O Xinguano vive do que a terra lhe oferece e daquilo que consegue plantar. Dinheiro, economia… possuir não tem nenhum grande valor. Aqui não se vive para o futuro, se vive para o presente e para a coletividade. A vantagem de quem vive no Xingu é que ele tem uma certa distância do mundo em que nós vivemos que se estrutura na posse, no acúmulo como meta de vida. Nem que aquilo que se acumule seja só informação, títulos, feitos, obras…

Conforme me explicaram o Kaiabi quando morre quer tudo que é dele seja queimado para a sua pessoa não seja lembrado. Ele quer partir sem levar nada.

Isso é muito diferente para nós que não queremos abrir mão de nada e ainda pensamos em deixar alguma coisa para nossos descendentes.

Mas como resolver a questão de fazerem entender que o que fazemos como arte é abstração. É uma manifestação do indivíduo, da sua necessidade de expressar a sua sensibilidade…

Enfim tenho muito o que pensar mas enquanto isso vou resolvendo problemas.

O curso se desenvolveu de maneira muito fluída. Quando pus eles para criarem, fizeram bem. Quando mostrei o material gravado eles souberam ver os acertos e os erros. Se prontificando a acertar.

Isso é o que importa agora.

O grande desafio deste trabalho ( e desta produção) é a comunicação.