Lisboa 2012

Meu ano começou em novembro do ano passado…

Recebi um convite para dar aulas em Lisboa e agora está tudo acertado.

Vai ser no último fim de  semana de Março do dia 29/3 ao 1/4.

Estou super animado com esse curso.

Vai ser muito estimulante compartilhar a minha experiência brasileira de cinema lá no Outro lado do Oceano.

Oficina Intensiva de Interpretação e Direção de Atores no Cinema.

Um grande abraço a todos e Feliz 2012!!!

Adeus 2011!!

Adeus 2011!

Foi um ano de muita diversidade e muita adversidade.
Projetos difíceis, projetos cancelados, projetos postergados. Cursos maravilhosos em Recife, Rio Branco e Fortaleza. E mais oficinas no Rio de Janeiro, Florianópolis, Campinas e em São Paulo.

A maturidade profissional só se alcança com tempo. É preciso ter entrega, olhos bem abertos, flexibilidade e fé.

Às vezes o tempo pode ser encurtado e mesmo jovem pode se perceber a maturidade de um artista. Fiquei muito emocionado com os depoimentos dos Capitães de Areia, a experiência nem um pouco glamourosa de fazer seu primeiro longa, deixou marcas positivas para as suas vidas. Em sua maioria eles tem a postura que muita gente ‘velha’ não tem.

O meio artístico é elitista, arrogante e seletivo. Muitas pessoas sem critério e que se apoía em opiniões preconcebidas. É preciso saber lidar com isso para não se perder e ao mesmo tempo não criar uma outra arrogância de ‘se achar melhor’ do que tudo isso. A interdependência é enorme. A concorrência mais ainda. A inveja nem se fala. Porém o mundo é feito disso e somos todos parte do mundo. Nossas obras retratam isso e se prestamos atenção ao que falamos nosso discurso apresenta momentos de total falta de humildade.

O Ego está presente em tudo. Não dá para matar, trocar, vender, rifar, modificar… Dá para não alimentar. Se bem que nossa sociedade já criou um banco de alimento para o Ego muito eficiente. Tudo é opção, nada é decisão. Palavras vazias, ações esvaziadas. É tão fácil se trair. Quero ver assumir.

Dentro da minha filosofia de trabalho eu não dou muita atenção aos egos por não ser minha função, por não estar preparado para isso, por não querer alimentar o Ego. Reprimir não funciona por que o Ego é própria repressão do indivíduo. Um antídoto é a Arte.

Nesses anos conheci muitas pessoas que se curaram pela Arte. Nesse blog já relatei vários casos.

No final da vida Grotowski falava da Arte como Veículo. Ele já havia abdicado totalmente da obra artística, já havia transcendido a experiência artística e se dedicou cultivar a vida toda como uma experiência única de processos orgânicos de libertação do indivíduo.

Andando pelo Brasil à fora passei na frente de muitas igrejas que também propõe a Libertação. E sei de muita gente que encontra conforto aí e que está em Paz.
Muitas dessas igrejas ocupam espaços que os artistas poderiam ocupar se eles tivessem mais humildade e não vivessem a reboque de um desejo de reconhecimento.

A melhor parte das obras que fiz não saíram das salas de ensaio. Foram consumidas lá mesmo e processadas nas vidas das pessoas que participaram daquele momento. Em muitas ocasiões isso foi muito mais gratificante para mim do que ver o filme na tela. É isso que me alimenta.

FELIZ 2012!!!

Dicas

Muita gente me escreve pedindo dicas ou conselhos para entrar no mercado. Mas eu realmente não sei o que responder. Eu não sou produtor de elenco e só sou consultado em casos muito especiais.

A recomendação é estudar ou melhor manter seu treinamento em dia e estar aberto para oportunidades.

Conseguir trabalho não é fácil.

A vida do ator é talento e vocação por que é preciso ter muita convicção do caminho escolhido mesmo sem saber onde vai dar.

Escolher elenco é um momento delicado… muito delicado. A decisão mais difícil e determinante numa Produção.

A minha função é preparar o elenco. Às vezes sou convidado a realizar testes para escolher o elenco por que o diretor que saber qual é o potencial do ator, o quanto ele pode somar a dramaturgia. Entretanto a escolha é do diretor e essa uma decisão baseada em vários critérios pessoais e subjetivos.

Se me perguntam o que eu penso eu analiso a proposta com frieza e dentro do contexto do que se quer com o filme.

Se o ator em questão é experiente escolha parece ser mais fácil por que existem referências de seu trabalho em outros filmes. Isso diminui a subjetividade da escolha. O diretor também precisa defender sua opção até o fim. Ou seja a sua decisão precisa reforçar sua convicção de que o projeto vai ser bom.

Existem vários casos em que os Produtores trazem uma lista de atores e querem que o elenco tenha nomes conhecidos. Esses nomes podem agregar valor e qualidade ao filme. Podem interessar mais financiadores. Podem atrair mais espectadores. Enfim fazer cinema é caro. É como um celular pré-pago. É preciso ter muito crédito para poder experimentar ou ousar.

Agora quando o ator é novato a escolha pode gerar ansiedade. O que é algo desnecessário e que procuro minimizar tomando tempo para conhecer, preparar e desenvolver um trabalho técnico. Existem critérios para fazer essa escolha. Poucas vezes eles levam em consideração que ele estão dando uma oportunidade para alguém. Ou seja alguém sem nenhuma referência dificilmente consegue uma oportunidade. A não ser que seja um projeto que envolva pessoas muito especiais.

Como foi no caso do Capitães da Areia, O Banheiro do Papa, Xingu, entre outros.

 

Mas a tendência é combinar um elenco com atores experientes e atores menos experientes. Elenco é composição. Esse pode ser um caminho para começar.

Existem também muitos cursos de audio visual e muitos diretores que estão produzindo curta-metragens.

O mercado existe mas ele não é tão grande quanto se deseja.

Sei de atores famosos americanos que só deram certo à partir dos 35 anos.

De Rio Branco para Fortaleza

Um breve relato das viagens e algumas coisas que abordamos nessas aulas. Cada curso tem uma característica própria e muitas quando termino um ainda fico digerindo algumas questões. Eu adoro dar aula por que revejo toda a minha trajetória e reflito sobre o que fiz.

Em Rio Branco fui recebido por um calor de 30ºC às 3 da manhã. No dia seguinte a temperatura chegou a 38ºC. Fiquei mole e me enfiei no hotel. Ar condicionado no máximo. Confesso que sabia muito pouco daquele estado e que não conhecia nenhum cineasta local.

Usina das Artes - Rio Branco, Acre

Fui dar aula nesse belo espaço chamado Usina das Artes que está instalada dentro de uma antiga usina de beneficiamento de castanha do Brasil.

A maioria dos participantes da oficina são alunos do curso de artes cênicas ávidos de experimentar um modo diferente de trabalhar. Acho que foi vi isso que vi nos seus olhos e logo me identifiquei com eles. Tímidos, respeitosos, pouco à pouco foram se abrindo e se mostrando. O fato da maioria deles estudarem junto teatro facilitou a oficina pois já se conheciam e haviam feitos outras oficinas e aulas em conjunto. Também tinham as mesmas questões e buscas com algumas diferenças pois uns estavam mais maduros que outros.

Havia um outro grupo menor de alunos que estavam estudando cinema que haviam feitos muitas aulas teóricas e alguns pouquíssimos exercícios de câmera. Entre estes muitos estavam apenas desenvolvendo um olhar cinematográfico e artístico. Todos se viam como futuros diretores.

Mesmo sendo os dois grupos pertencentes a Usina das Artes eles não haviam trabalhados juntos ou se conheciam.

 

Uma das coisas que sempre falo para provocar é que todos querem dirigir e poucos querem estar na frente da câmera. E que por isso eu faço uma troca de funções para entenderem melhor a posição que cada um ocupa dentro de uma produção.

Existem poucos diretores que conhecem o que faz um ator e que por consequência tem recursos limitados para dirigir um ator. Para mim dirigir é dar um sentido as ações, é também incentivar, pensar junto, elaborar critérios estéticos e dramatúrgicos. A relação do diretor com o ator deveria ser uma relação transparente de confiança.

Por outro lado os atores por desconhecer o que idealizam o diretor e quando ele não atende ficam ressentidos, desconfiados ou desmotivados. Em geral os atores não gostam de ser mandados mas por falta de motivação, formação, treinamento, experiência, por vaidade se colocam à margem do processo. Os atores não se vêem como agentes ativos de uma mensagem, de uma proposta. Muitas vezes só pensam na personagem, na outra vida que irão viver. Isso excita mas não é que faz um ator. Ele não pode sair de si. Ele pode acreditar no que faz que nos convence que aquilo não é ficção. Entrar na ficção não é fácil. Personagens não são seres humanos, não tem carne e osso. Personagens são idéias, mensagens, artifícios para contar uma história. Quando o filme acaba eles ficam presos lá enquanto os atores já se foram para um próximo trabalho.

Nesse curso, estimulado pelos alunos, principalmente pelas questões de Lelande Holanda, que me mostrava a cidade e aproveitava para fazer perguntas, me aprofundei em algumas questões.

Emoção é movimento. Consciência é movimento com domínio. Domínio não é controle, nem contenção. É agir, pensar e sentir ao mesmo tempo.

Sentir não é o mesmo que sentimento. Sentir como eu conceituo tem relação com os sentidos. Tem seu lugar na pele, nos olhos, nos ouvidos, na boca, no nariz, no seu eixo, nos seus orgãos, na maneira que os estimulos te indicam quem você é, onde você está e como está. Todo seu aprendizado, sua formação do pensamento começou pelos sentidos. Sem eles a sua compreensão do mundo e de você seria outro.

Agir é movimento com direção, com sentido no espaço. O Agir é consequência dos seus sentidos pois seu Pensamento é fundamentado em algo que seus sentidos transmitiram. Até mesmo a intolerância, a destruição e a crueldade fazem parte do ser humano. E não se justificam apenas são. Podemos repudiar e somos em parte educados para fazermos isso entretanto somos atraídos para elas.

O Pensar é processar, gerir, motivar, estimular, refletir, traz o indivíduo para a ação, é crer no que se faz, estar presente. Pensar é fundamental para dar sentido aos movimentos, graduar, expandir suas fronteiras. Ter noção de limite e de direção que se vai tomar. O Pensar está ligado com a capacidade de processar estímulos e gerar ações.

 

O que é o Ator faz e o Diretor são ações, imagens que permitem uma ánalise. Ela s nascem do desejo de dizer algo, de transmitir algo e que pode nascer de uma crítica ou visão sobre um tema. Entretanto tudo isso é muito mais subjetivo do que objetivo e muitas vezes se descobre depois o que realmente motiva suas escolhas.

O mar é muito presente em Fortaleza

Contemplar...

 

Eu tinha muita vontade de conhecer o Ceará. Conheci alguns cearenses, músicos, atores, diretores, bailarinos, cineastas e mesmo sem ter um conhecimento íntimo da produção local eu respeitava.

 

Em Fortaleza encontrei um grupo de atores e alguns diretores. Havia entre os alunos alguma afinidade. A cidade é menor e de alguma maneira essas pessoas já haviam se encontrado. As questões ou a motivação destes alunos era quanto a técnica do ator no cinema. Alguns já tinham participado de alguma produção audiovisual, outros estavam querendo ingressar. Alguns alunos participavam de grupos de pesquisa de teatro, outro tinha uma formação em dramaturgia e já dirigia seus trabalhos. Enfim um grupo heterogêneo mas com muito interesse na questão técnica.

 

Percebi que nesse grupo os atores tinham um trabalho corporal muito bom. Parece que todo mundo no Nordeste já nasce dançando e a musicalidade do gesto e da voz é muito forte. Tanto que quase não uso música na aula por que não sinto necessidade.

Mas como isso acontece orgânicamente são pouco conscientes do que fazem e há uma percepção da técnica como algo exterior. Pelo menos foi que percebi. Diferentes de mim que por muito tempo me achava um desastrado e até hoje não sei dançar, estudei muito para poder ter mais leveza e domínio do meu corpo.

 

Quando eu comecei a desenvolver o método que utilizo eu quis incluir a alegria, a afetividade, a inventividade e a espontâneidade da nossa cultura. Mas também tinha consciência de que a forma final não podia ser o ponto de partida mesmo se ela fosse linda por que isso seria reproduzir. Que os meus conceitos não poderiam ser feitos a partir de preconceitos mas de uma flexibilização do que eu sei. Eu precisava encontrar pontos de encontro comigo e conseguir me identificar com aquilo que estava fazendo para poder desconstruir a forma e construir o que eu precisava. Precisava ir além do “gosto ou não gosto”, dos julgamentos, da exclusão. Precisava permitir experimentar o possível dentro dos meus limites. Enfim diminuir a minha ansiedade por resultados e reconhecimento.

 

Em todos os cursos eu começo fazendo um exercício de respiração. Esse exercício procuro repetir todas as aulas. E faço isso por que começo dizendo aos alunos que 80% dos meus problemas de atuação e de direção eu resolvo observando a respiração. A respiração é algo que quanto menos se mexe melhor fica, que aquilo que organiza todas as funções do corpo, que é vital. Que quando olho alguém que estou dirigindo ou quando atuo e algo não está bem, basta eu parar e observar de que modo aquela pessoa  está ou eu estou respirando para ter a resposta de como agir para melhorar o funcionamento da ação. É muito sútil e é necessário anos de observação e prática para poder realmente perceber isso. Mas o primeiro módulo do meu curso se resume a isto que quando o aluno se entrega tem uma percepção maior de tudo que lhe cerca.

 

Fico muito feliz quando os alunos conseguem observar e aceitar isso por que sei que parece pouco. Por que parece tão óbvio que todos deveriam saber entretanto não sabem. Quando simplesmente conseguimos nos harmonizar com nossa respiração há um bem estar e um fortalecimento do nosso indíviduo.

 

Nossa sociedade como um todo respira mal. Principalmente nas cidades onde a ansiedade gerada lá é proporcional ao seu tamanho. Existem muitos fatores que geram a ansiedade: a competividade, o medo da exclusão, o desejo de ser aceito, a falta de intimidade consigo, a falta de espaço, a falta de conforto, a insatisfação… Enfim a ansiedade é o maior inimigo da respiração. Ela distorce o que os sentidos percebem gerando um desequílibrio ainda maior no pensar e agir.

 

O que venho dizendo repetidamente para os atores é que se apropriem do material, do roteiro, daquilo que vai ser feito para que realizar sua criação autoral. Um filme é feito de muitos autores que escrevem a seu modo a história.

 

Cursos

Toda criação é uma viagem ao Desconhecido!

De novo na estrada. Estive em Recife dando aula na Fundaj.

Um grupo constituído por estudantes de cinema, diretores e um ator.

É um prazer dar aula. Ao lado da parte prática do curso discutimos muito a questão da dramaturgia. Todos assinalaram que na sua formação pouco espaço foi dado a dramaturgia. Como se a questão maior seria o conhecimento técnico e a criatividade. Muitos se ressentiam de uma debate sobre o que querem dizer pois mesmo que seja o ator que diga, ele é um porta voz das propostas dramatúrgicas do diretor, do roteirista, da produção. Essas propostas tem uma relação com a estética, com o modo de produzir, com todas as escolhas, com as imagens que serão utilizadas, mas ela estão todas sujeitas ao que se quer dizer.

A ficção não é um esconderijo e as personagens são marionetes. A realidade contida dentro da ficção é a realidade interior de um autor que tem suas motivações para trazer-las à tona. O interessante que o cinema permite que existam várias visões sobreposta, complementares e até conflituosas sobre o mesmo material. Cada um tem o que dizer mas precisa se voltar para isso para poder comunicar. A origem não pode estar ausente. Às vezes ela não se revela com facilidade, é preciso um trabalho maior na linguagem para trazer a clareza que se quer para alcançar a transmissão daquilo que nos motiva a comunicar.

Essa semana parto para Rio Branco dar mais um curso. O Acre é um lugar que só existe na minha imaginação… estou curioso para conhecer o que se produz por lá.

De lá vou para Fortaleza.

E depois para o Rio de Janeiro.

Dia 21, 22, 23/10 de 2011

Macbeto

Na última sexta feira terminei o trabalho de preparação do telefilme Macbeto.

O roteiro é bem divertido e fala de um sonhador, com dificuldade de lidar com a realidade e com situações adversas. Um retrato de um artista quando jovem.

Beto é um jovem diretor que foi muito promissor na faculdade mas que desde que saiu de lá nada conseguiu e entrou em crise. Sete anos depois tem uma visão:

Montar Macbeth com lutadores de luta livre. E enfrentar sua própria crise.

Nessa história tem um pouco de todos nós sonhadores, homens que precisam amadurecer e matar um rei para se tornar adulto.

O bom que é uma comédia. É um trabalho ainda mais delicado de atuação. Não fazia um filme tão difícil de ajustar desde o Banheiro do Papa.

A comédia expõe ainda mais os atores pois seus personagens podem cair na caricatura ou num comentário mas quando encontram a dimensão humana, perigosamente próximo de nós mesmos, eles são um gol de placa.

O Guizé como Beto. O Trovão como Trovão. A Larissa como Leticia. O Milhem Cortaz como ele mesmo tem uma bela oportunidade de fazer um filme muito bonito.

A preparação intensa e curta para a necessidade do filme foi um encontro generoso. Para mim esse personagem homenageia todos os diretores de teatro, arte difícil e pouco valorizado.

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JULHO

Estou dando um treinamento individual na minha casa com resultados muito bons. Sair da loucura paulistana já é 50% do trabalho.  Sei que é para poucos que se dispõe a vir até aqui mas cada quilometro é transformado em qualidade.

A proposta de se fazer um trabalho individual é aproveitar o máximo de uma relação próxima e intensiva que não se tem num curso. É uma relação de confiança e entrega. Mas para fazer isso é preciso realmente se desligar do seu cotidiano e abrir uma exceção.

Encontrar algo que atenda a suas necessidades não é algo fácil. Cada vez mais a informação massifica e falta formação. Acredito que é preciso ir na contra mão do excesso de informação que não consegue ser digerida para se aprofundar naquela que te faz bem.

Às vezes percebo nos meus alunos uma atitude de restaurante self service, eles só experimentam um pouco de tudo e satisfazem em parte. O tempo para se compreender algo é muito maior que tempo de produção. Por que muito do que se produz é apenas uma repetição. Quando eu começo um trabalho eu digo que só vou melhorar o que já tem. Dialogar com seus conhecimentos e conceitos. Estimular a rever, a encontrar o prazer que aquele conhecimento te propicia. Vivemos uma época de muita insatisfação, de que estamos sempre em falta com alguém ou com algo. Isso é péssimo mas é uma realidade que bloqueia a criatividade.

Domingo

Após uma merecida semana de férias tenho uma certa letargia em escrever algo sobre o que faço.
Terminei a preparação de um filme e embarquei num vôo direto para Caracas para dar aula.
Foi minha quarta vez lá. Dessa vez o público era formado por atores mas por alguns diretores experientes em cinema, televisão e publicidade.
Fui muito questionado.
A pergunta mais frequente é “como eu funciono dentro de uma equipe?”
A resposta parece clara mas não é.
A função de preparador de elenco é nova. Cada preparador tem seu modo de agir e de se relacionar com a equipe.
“É necessário o Preparador ir para set? E se não vai, quem se responsabiliza pelo trabalho dos atores?”
Depende de cada caso, do tamanho da produção, da necessidade do diretor. Em todo caso os atores são responsaveís pelo seu trabalho. Uma responsabilidade compartilhada com o diretor que conduz o processo e que é que faz as escolhas do que quer ver em quadro. Como cada ator atinge ou produz o seu trabalho é responsabilidade de cada um.
A Preparação é feita para que se reduza o tempo, o desgaste, para que se produza uma qualidade de atuação desejada pela direção. É um tempo em que os atores e o diretor (se quiser participar) se dedicam as se conhecer, a provar a força das imagens que vão produzir. Durante esse período de ensaios os atores e o diretor vão acumulando informações, desenvolvendo ações e pensamentos que vão servir para o momento de filmar.
Mesmo que existam pessoas que divergam comigo o ensaio não é para cristalizar ou tornar mecânico as ações dramáticas do roteiro. Ela serve para facilitar decisões que vão ser tomadas na hora. Dependendo de cada projeto pode ou não existir improvisos mas em geral se trabalha com paramêtros que determinam quanto espaço cada um tem para criar.
Quando tem um preparador qual é o espaço para a criação do ator?
Idéias são imateriais e duram o tempo que cada pessoa se lembre delas. Um roteiro é um guia numa paisagem de idéias. Um roteiro funciona para nos descrever o que vamos ver. Mas ele é incompleto. As ações e as imagens virão do processo. Atores precisam reforçar sua convicção para acreditar no que fazem. Precisam de tempo para permitir que essas idéias agem no seu ser provocando ações, pensamentos, movimentos. Personagens quando estão no papel nos dão uma idéia de que podem ser mas estão longe de ser. Nada de que foi escrito tem uma justificativa. Tudo faz de uma estrutura, de um labirinto, de um pensamento. Não existe nada de acaso num roteiro. As idéias podem surgir caprichosamente do acaso mas não podemos nos satisfazer com isso. Nenhum ator nasce pronto e nem está pronto. O trabalho com um preparador é um trabalho de confiança. O preparador é alguém que já tem experiência suficiente para compreender as idéias do roteiro e da direção e com uma margem grande de abertura para escutar as propostas dos atores. Que para mim se tornam autores dos seus personagens. É importante para o ator sentir-se livre tendo ao seu lado alguém que lhe diga onde estão os limites. Que lhe dê retorno, que lhe seja um espelho (imperfeito) e que saiba ver o que faz com critério.
Pessoalmente eu procuro fortalecer o ator. Dar-lhe mais motivos para criar, propor desafios, acompanhar ele na sua jornada…
e sobretudo aprender algo mais sobre o que estamos fazendo que isso dá prazer.

À Flor da Pele

Na Preparação dos Atores do filme Rendas no Ar eu pude experimentar algo novo: Trabalhei muito próximo da Direção de Arte, utilizamos lugares e objetos similares aos do filme e ensaiamos muitas vezes com os figurinos.
Os figurinos desta produção de época são maravilhosos. Eles seguem uma compreensão própria do que é a época histórica do filme, do que é o modo de viver das pessoas, do que são as pessoas. Eles não são realistas, eles são da imaginação de um grande artista visual Kabila Aruanda.
Os figurinos dele são a pele da Personagem e vão além de uma ilustração dela ou um indicativo de sua posição social, sua personalidade, seu gosto. Eles trazem um movimento próprio que compõem com o corpo do ator. O bom gosto, a ousadia, os contrastes de formas são sedutores. Eles propõe uma complexidade humana em camadas de tecido, em textura de cor, em fios, linhas, curvas, bicos, volumes que o ator imediatamente reconhece. Os figurinos não revelam com facilidade. Todo o figurino é sugestivo, imaginário. É um jogo de convenções, de atrair e afastar, de movimentos que jogam com o olhar.
Isto inspirou os atores. Eles se deram conta de que o próprio figurino dizia mais do seu interior, da sua personalidade, de faziam uma função dramática de ampliar a sua visão do personagem ao invés de simplesmente cobrirem seus corpos , escondendo-se por detrás dela a flor da sua pele.
Os figurinos de Kabila Aruanda propiciam uma exposição ainda maior das personagens. Eles estão nus em sua pele construida.
O que vestimos é uma parte de nossa identidade, cada um é o que o outro vê e entender ver mas a massificação nos torna iguais. É difícil mesmo encontrar o que nos distingue. Agora estou em um Hotel em Caracas, a não ser pelo modo de falar, somos todos semelhantes. Os empregados uniformizados e os hóspedes vestidos. É uma idéia de democracia que que todos podem vestir o que o outro veste.
O que é dentro e o que é fora quando se pensa na pele e no sentido do tato.
A pele, assim como todo o corpo é apenas uma embalagem para abrigar nossos sentimentos, nossos pensamentos, nossa verdade, nosso anima?
Renegados a um segundo plano no trabalho do ator os sentidos, não confundir com sentimentos, são um meio para acessar a imagens, sensações, reativar e flexibilizar nosso pensamento.

Tempo

O Tempo de um lugar não é igual ao outro.
Fiquei tão envolvido com a falta de rotina que nem vi que fazem 4 semanas que não escrevo aqui.
Recentemente tive o prazer de falar sobre a preparação do meu primeiro longa Jogo Subterrâneo dirigido por Roberto Gervitz. Foi ele que me convidou para falar sobre esse trabalho nas aulas de direção que ele estava dando na Escola São Paulo.
Foram muitos os desafios do filme. Preparar uma menina de oito anos para se comportar como uma criança autista.
Preparar um ator experiente para um papel difícil, silencioso, contido, explosivo…
Elaborar uma estratégia para testar os atores principais.
Eu aprendi muito e fui muito testado. Os anos de teatro, de leitura de texto, os anos de auto conhecimento, de leitura de textos sobre o funcionamento da mente, do corpo, dos sentidos, de como aprendemos…enfim tudo que recolhi em anos de leitura aparentemente aleatória foi totalmente utilizado.
Foi o primeiro trabalho em que o diretor me pediu uma análise dos personagens, uma proposta de como abordar essas personagens, de uma análise da temática do filme.
Eu não conhecia bem o Roberto mas não me intimidei. Eu agradeço que ele tenha me pedido tanto por que logo pensei que seria bom sistematizar meu método de trabalho.
Experimentei muita coisa. Mas muitos exercícios foram resultados de investigações anteriores, de um pensamento formado durante anos de trabalho anterior a minha entrada no cinema.
O Teatro continua sendo para mim um lugar maravilhoso para se aprender. A Arte que lá se faz é outra do que o público vê. O envolvimento que se pede as pessoas e ao grupo é muito enriquecedor. Por ser uma forma de arte imediata pode se desfrutar logo daquilo que se produz e seguir se aprofundando logo.
Enfim eu quis falar do filme mas falei do teatro.
Esse filme me possibilitou aplicar o meu modo de trabalhar a uma linguagem nova para mim.
Nessa época nasceu meu filho e sinto que nasci junto com ele. Hoje ele tem oito anos de idade é a idade do meu Método como hoje ele se apresenta.